E aí?

Acabou a eleição?

Valter Caldana

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Quando um não quer, dois numbriga?

Vamos ousar pensar ao contrário, exercício muito prático em questões de cálculo, de matemática avançada e geometria, filosofia e, não raro, política:
Dilma insiste com Mercadante (por quem nunca nutri especial simpatia), com Cardozo (por quem já nutri alguma simpatia quando vereador) com Janot (de quem nem me atrevo a falar nada), que até onde sei estão garantindo a continuidade das investigações e resistindo à investidas contra as mesmas que vêm de todos os lados. Pois bem…
Dilma assume, e insiste, em um ministro e uma política econômica que reconhece e desnuda seus erros na prática e assume um programa (transitório?) econômico que irrita e deixa uma amarga sensação de traição em milhões de seus eleitores, dando razão ao discurso oposicionista. Pois bem…
Dilma peita o Legislativo, por convicção e por in”habilidade” (incompetência?) política, em seus dois mandatos, e perde o apoio de todas as raposas do Congresso e de sua zona orbital, incluindo aí seu criador Lula e em boa medida de seu partido de adoçao, o PT, que permanece num silêncio sepulcral (silêncio contundente e assustador para quem conheceu o PT desde a fundação…)
Dilma é a Presidente eleita legitimamente em votação direta e secreta para governar o país nos próximos três anos e meio.
Vivemos (infelizmente, já que sou um parlamentarista convicto) num regime único de presidencialismo de coalizão, que abre portas para a corrupção… Pois bem…
Com quem estamos brigando? Com quem devemos brigar? Por que? Por quem?
Valter Caldana
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Novos velhos temas e a janelinha

Uma observação sobre a gestão da cidade de São Paulo e sobre a lenda urbana de que a cidade cresceu sem planejamento: vejamos alguns temas que aparentam ter sido “inventados pelo Haddad” para nos incomodar cotidianamente, mas que têm de 30 a 50 anos de discussão e ação acumuladas, quando não 80…

Faixas de ônibus – 35 anos e ainda em implantação
Corredor de ônibus – 30 anos e ainda em implantação
Calçadão – 40 anos (e deveriam estar sendo ampliados)
Plano Diretor – 47 anos (PUB) e recém atualizado
Zoneamento – 45 anos e em discussão na Câmara (vai mal)
Velocidade em vias expressas (marginais inclusive) – 40 anos
Ciclofaixas – 12 anos e em construção (a primeira, 35 anos)
ZEIS – 12 anos e em implantação
Corredor em Z1/ZER – 35 anos e em discussão
Regularização fundiária e regularização de favelas – 30 anos
Ocupação de áreas de risco e mananciais – 40 anos e ainda …
Revitalização do centro – 80 anos e em discussão
Minhocão – 45 anos de discussão
Fim do departamento de urbanismo e toda a força à CET- 45 anos

Ultimamente tenho dito e escrito que o mito “São Paulo, cidade não planejada” é, na verdade, um muito bem engendrado mecanismo de auto-indulgência, sobretudo dos agentes e setores hegemônicos no sistema de produção da cidade.

O nosso problema é que São Paulo foi SIM planejada, só que para ser assim como é! E hoje este modelo já não nos serve, não nos agrada. Não serve a uma parcela significativa da população que hoje se sente em condições de alterar o equilíbrio do sistema de forças que produz a cidade, mesmo não sendo ainda hegemônico.

Seja como for, vale lembrar que este modelo vigente funcionou muito bem de 1930 a 1980 para construir uma das cinco maiores cidades do mundo, que recebeu e abrigou milhões de migrantes e imigrantes e produziu riqueza “a dar com pau”, ainda que a custos sociais, culturais e ambientais altíssimos, gerando déficits também monstruosos.

O que importa, agora, é saber quem conseguirá mobilizar, seduzir a sociedade para assumir a necessidade de trocar este modelo de urbanização, que se tornou um cadáver insepulto. Haddad, atropelado pela crise petista, pelo movimento pendular do eleitorado paulistano, pelo peso da máquina que reproduz cegamente hegemonias anteriores e por suas próprias limitações tem tentado. Mas conseguirá corrigir rumos e receber mais quatro anos para consolidar mudanças iniciadas?

Portanto, peço atenção para o fato de que talvez não seja a cidade que tenha crescido sem planejamento. Talvez sejam amplos setores da sociedade que tenham despertado só agora para este tema e estejam buscando um novo posicionamento neste sistema. (leia aqui)

Enfim, para aos novos partícipes desta longa conversa, um lembrete: a cidade não só NÃO É um palco ou um ser inanimado como, ao contrário, é protagonista na nossa vida, é um ser vivo que reage a estímulos… E a resultante de um complexo sistema de forças do qual todos fazemos parte.

Valter Caldana

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Anhangabau: considerações sobre um projeto (que não vi)

A prefeitura vai apresentar e colocar em debate o projeto para o novo Vale do Anhangabau. (veja aqui)

Vou tecer comentários sobre esta questão antes de ver o projeto desenvolvido pelos meus queridos amigos, que deve ser um bom projeto, para que não se confunda o que digo aqui com uma crítica ao próprio projeto. Trata-se de crítica ao processo.

Se tornou cansativo e inaceitável o descuido do poder público para com seu acervo, seu patrimônio de projetos de qualidade, todos engavetados ou desrespeitados. Só para o resgate das condições de uso do Anhangabau eu conheço vários, a começar do último, desenvolvido a partir da construção da belíssima praça das artes no beco Monteiro Lobato (tiro de guerra), cuja proposta, como não poderia deixar de ser, era se esparramar pelo vale.

Há tantas outras, que propõem transformações nos térreos do edifícios lindeiros, a instalação de novos usos e novos programas e a manutenção, sim, MANUTENÇÃO (palavra que causa síndrome de pânico, vertigem e calafrios no poder público) do que ali já existe.

Eu mesmo tive o prazer, há anos e anos, de ser co-curador da exposição de inauguração do MASP Centro, na Galeria Prestes Maia, justamente sobre o próprio. Instalar o MASP Centro na Galeria Prestes Maia, antiga sede do FENAME (talvez o melhor uso que ela já teve), foi uma tentativa de incrementar o uso cultural e institucional da área…

Pasmem, existe até a proposta de terminar de implantar o projeto original, seja do ponto de vista do sistema viário (como a alça subterrânea que nunca foi construída) seja singelamente fazendo o café (un tout petit peut trop parisien) que estava previsto.

Este caminho adotado da espetacularização das intervenções urbanas não nos alimenta, não resolve a cidade real. Ao contrário, com nossas mazelas e vicissitudes a espetacularização atrapalha. Exemplo claro disso? O Largo da Batata! Projeto violentado, mutilado e mal construído. Obras da Copa… precisa mais?

Por isto não posso deixar de protestar: o atual Anhangabau, com suas virtudes e suas falhas, foi fruto de um concorridíssimo concurso público, que contou com seminários para as equipes concorrentes, estudantes de arquitetura e outros interessados, além de um processo de consulta e discussão pública tão amplo quanto possível ainda no apagar das luzes da ditadura.

Concurso este que só aconteceu fruto de mobilização de “amplos setores” da sociedade preocupados, desde então, com o futuro do centro da cidade. Vale lembrar que houve, na época, inclusive, uma proposta de se construir mais um viaduto/passarela sobre o vale. Sendo Maluf governador, ainda me lembro dos debates sobre se o viaduto se chamaria passa_paulo ou paulo_passa. Feito o Concurso, ganhou a equipe composta por Jorge Wilheim e Rosa Kliass, ela uma profissional ainda atuante.

Modificar o Vale, reformá-lo, passados quase 30 anos, pode até ser desejável, ainda que de prioridade discutível. Eu mesmo teci diversas críticas ao projeto e seus desdobramentos nestes anos todos, algumas delas em conversas, privilegiadas, com os próprios autores.
Fiz também, ao tomar conhecimento das ilustrações do Ghel sobre a área , uma proposta alternativa… (leia aqui)

No entanto, reformar uma área como o Anhangabau, que compõe, em conjunto com a sufocada Praça da Bandeira a nossa praça cívica, numa cidade onde a História começa a se fazer cada vez mais presente, onde o sentimento de pertencimento começa, finalmente, a conduzir a percepção das pessoas com relação à importância da qualificação dos espaços públicos deveria ser feito de modo mais criterioso, respeitoso, caloroso, generoso.

Seria importante, neste momento, que fosse feito apontando para uma nova maneira de encarar a produção da cidade, uma maneira que não reproduza o extrativismo urbano e sua visão avassaladora de que a mesma seja composta por patrimônios descartáveis.

Esta visão, é verdade, quase virou uma marca paulistana e bem ou mal nos trouxe até aqui e nos tornou uma das 5 maiores cidades do mundo. Mas se exauriu, já não nos basta, já não responde a nossos anseios e nossas necessidades.

É preciso lembrar que se em pleno vigor juvenil só temos olhos para o futuro, a tudo atropelando num processo de crescimento desvairado, como São Paulo no século XX, e na velhice, em geral, só temos olhos para o passado, como muitas cidades europeias que se estagnaram e enfrentam o desafio de se reinventar, é na plenitude da maturidade, que São Paulo começa a vivenciar, que adquirimos a consciência de que construir o futuro implica necessariamente olhar o passado e analisar o presente.

O atual processo de reforma do Anhangabau se fez a partir de um caderno de ilustrações feito por um escritório contratado pelo Itau, que as doou para a prefeitura, que fez uma licitação para que um outro escritório desenvolvesse o projeto básico e/ou o executivo, que só agora se abre para consultas públicas, que deveriam ter sido, de fato, o início de todo o processo.

Sendo o Anhangabau um marco da cidade, seria muito bonito ver este processo também como o marco de uma mudança de postura da administração pública (não apenas desta, mas por que não desta) no trato dos espaços públicos, com a valorização do existente e do pré-existente, de sua história, de seus autores e, sobretudo, de sua apropriação pela sociedade, PELAS PESSOAS, como paradoxalmente prega o autor das infelizes ilustrações que deram origem ao projeto que se vai apresentar.

Precisamos ser menos gongóricos, barrocos ou malabaristas nos processos de tomada de decisões. Transparência e objetividade ajudam muito, como a própria prefeitura já percebeu em ocasiões recentes.

Continua…

Segue uma proposta para o Vale do Anhangabau, feita em fevereiro desta no. (veja aqui).

Arquitetura para todos, construindo cidadania.

Valter Caldana

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Marginais!!

Três pontos de vista sobre a redução da velocidade nas marginais e outras vias expressas urbanas:

1. Técnico > Medida correta, já testada em vários países e cidades que possuem vias expressas na zona urbana. (Vale lembrar que muitas destas cidades estão simplesmente acabando com estas vias expressas). Chamadas de “40 miles zones”, NÃO resolvem os congestionamentos, mas AUMENTAM a velocidade média e DIMINUEM o tempo de percurso enquanto os carros conseguem andar. Ou seja, a viagem completa fica menor, mais RÁPIDA.
Pode-se, para quem já viu alguma vez, fazer a comparação com a F1, quando um piloto que para no box três vezes vence a corrida contra vários que param apenas uma ou duas vezes… Ele vence pois sua velocidade média é maior que a dos outros.
Neste caso, a redução de acidentes com vítimas graves e fatais e atropelamentos é um efeito colateral positivo da redução de velocidade, mas não é de fato seu maior motivador. Até porque, no caso da marginal Tietê, por exemplo, parte significativa dos acidentes ocorrem por mudanças bruscas de faixa motivadas por imprudência de motoristas (educação, sempre educação) e problemas no projeto e na sinalização da via.

2. Cidadão Motorista e Passageiro | Para estes é difícil de entender e DESESPERADOR para quem está dentro do carro num momento de não congestionamento. Chega a provocar efeitos semelhantes ao da síndrome de abstinência em dependentes químicos graves… irritação, olhos parados e esbugalhados, tremor, dores de estômago e, em alguns casos, alucinações e explosões de fúria. Deve-se incluir aí a eterna sensação (permanente) de que a medida só servirá para alimentar a indústria de multas que uma sociedade cotidianamente agredida pela máquina pública como nós somos tem todo o direito de sentir. Enfim, a medida vai na mesma conta do cinto de segurança, do limite de velocidade nas estradas e das proibições de estacionar, etc, etc… Resiliência, paciência e juízo, pois a multa virá e será cara…

3. Político – eleitoral | Me parece mais uma medida MUITO MAL comunicada à sociedade, que não foi preparada ou seduzida a colaborar, e que vai na linha do “que se pague a conta eleitoral de uma vez só, já que vou pagar mesmo… ”

Uma última observação, que fiz hoje a um repórter que me pedia opinião: ficamos tanto tempo sem contemplar questões “pequenas” porém importantes, demoramos tanto para enfrentar estas questões (ou as enfrentamos equivocadamente, como no caso das marginais e do rodoanel) que o que se poderia resolver com aspirinas há vinte anos hoje temos que resolver com cirurgias…

Valter Caldana

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