Despedida, um olhar.

Amigos e Amigas,

É com uma enorme felicidade que me despeço do cargo de Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Foram sete anos e meio de trabalho cotidianamente desafiador que por óbvio não teria sido possível sem o apoio e o envolvimento de cada um dos estudantes, professores, funcionários e, claro, da direção do Instituto e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

edifício Cristiano Stockler das Neves
Uma das infinitas lições que tive nesta passagem pela diretoria da faculdade é que se existem pessoas que dignificam cargos, o fato é que há cargos que dignificam pessoas e este é o meu caso. Nada do que eu possa ter feito em minha carreira profissional se equipara à honra de ter podido dirigir um curso de arquitetura e urbanismo centenário e uma faculdade septuagenária com a importância e o reconhecimento social da nossa, construídos ao longo destas décadas por tantos que nos precederam e nos trouxeram até aqui.

A felicidade do momento vem, naturalmente, de uma sensação de dever cumprido que só foi possível obter com trabalho em grupo, num sistema de gestão colegiada que contou nestes anos com a colaboração direta de mais de 20 coordenadores de área além dos participantes dos Conselhos de Curso e Núcleos Docente Estruturantes, também mais de uma vintena e, claro, os responsáveis por disciplinas, a quem agradeço especialmente pelo apoio, e com quem esta responsabilidade foi sempre compartilhada.

Esta felicidade se deve, ainda, ao apoio sempre crítico de toda a nossa comunidade, que se caracteriza, como gosto de dizer, por ser uma escola de diferentes e diferenças, nunca uma escola de iguais ou de pensamento único. Características estas que durante a gestão procurei valorizar e, acima de tudo, respeitar, em especial em momentos difíceis como a nota 2 no ENADE do curso de Arquitetura e Urbanismo.

Trata-se de uma felicidade que se construiu, portanto, pelo trabalho coletivo realizado. Afinal, neste período em que pude estar à frente da diretoria as conquistas de nossa escola foram muitas, sendo que algumas delas julgo valer a pena registrar aqui, como a presença dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e de Design entre os dez melhores e os 15 melhores cursos nacionais, respectivamente, assim como o reconhecimento do curso de Arquitetura e Urbanismo como o melhor curso não público do Brasil.

Quanto às instalações, registre-se a reforma completa do prédio 09 com climatização, ampliação da biblioteca e uso completo do edifício para os cursos da faculdade. Tivemos também a triplicação dos laboratórios e a modernização de suas instalações e seus equipamentos e a ampliação de áreas na Maria Antônia.

Nos aspectos didáticos e pedagógicos temos a grade horária fixa nos dois cursos de graduação e a reforma plena de seus projetos pedagógicos, que hoje permitem a superação, no processo de ensino-aprendizagem, dos limites tradicionais impostos pelas disciplinas, pelas salas de aula e ateliês e pela própria relação professor-aluno.

Pela primeira vez no Brasil projetos pedagógicos apresentam, para o ensino de Arquitetura e Urbanismo e de Design, caminho de avanço com relação à última evolução havida neste campo, cinqüenta anos atrás, com a implantação dos ateliês. São projetos que têm no envolvimento pleno de professores e alunos com sua própria formação, na experimentação, na flexibilidade e na internacionalização suas peças estruturais.

A escola conquistou, também, um alto grau de participação nas atividades de pesquisa e extensão se tornando saudavelmente ativa no tocante à apresentação de projetos PIBIC e PIVIC e se tornando a cada dia mais presente na obtenção de fomentos de fundos como o Mack Pesquisa e outras agências nacionais e internacionais. Nosso índice de internacionalização aumentou fortemente e nossa inserção social como agente formador de opinião é significativa.

O programa de pós-graduação stricto sensu se consolidou e se ampliou com projetos importantes em Fortaleza e Porto Alegre e caminha a passos largos para o objetivo de obtenção de sua merecida nota 6,0.

Se é verdade que, em que pesem todas estas conquistas, e talvez até mesmo por conta delas, haja ainda muita coisa a fazer e por fazer, como por exemplo o plano de carreira de professores e funcionários, a evolução constante dos sistemas de ensino, a formação de pessoal, os cuidados crescentes com as instalações e a ampliação do lato sensu, cabe ainda registrar mais algumas conquistas deste período.

Deixo a diretoria especialmente feliz com o fato de termos nossos órgãos colegiados operantes e cada dia mais influentes na gestão dos cursos e programas, por contarmos com alunos especialmente brilhantes, um corpo de funcionários administrativos e técnicos que se desdobra em cem e por contarmos em nosso corpo docente com profissionais da mais alta qualidade, com grande prática profissional e inserção no mercado de trabalho. Isto sem falar de que hoje mais de dois terços de professores são contratados para se dedicar também à pesquisa e à extensão.

Por fim, registro com especial carinho a consolidação de nossa internacionalização, a criação da empresa júnior de design, a qualidade de nossa participação no ProUni, a retomada do prédio 10, que voltou a ser sede da Faculdade e a materialização de dois projetos acalentados durante anos: a recém autorizada liberação da necessidade do registro de frequência em sala de aula – o fim das listas de presença! – e a reabertura do curso noturno de Arquitetura e Urbanismo.

Enfim, esta carta de despedida se tornou longa. Mas, muito emocionado, deixo aqui um abraço forte, fraterno e de gratidão a todos os envolvidos nesta trajetória. E aproveito para desejar que o novo período que se inicia amanhã, sob o comando da Profa. Angélica, seja ainda mais profícuo, de muitas realizações e pleno de sucesso.

Valter Caldana

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Binários

Em termos de organização e convivência em sociedade o nosso maior problema neste momento é também a solução.
Ao descobrirmos que uma parcela significativa dos brasileiros, boa parte oriundos das melhores escolas, não consegue entender que não aceitar um processo como foi este e um governo como o que está aí não quer dizer defender, muito menos incondicionalmente, o governo Dilma, descobrimos algo importante: o estágio real em que está nossa formação política e cidadã. Espero que surjam lideranças políticas capazes de fazer algo esta informação preciosa.
Acho que começaremos a ver, também, uma outra coisa… Há forças políticas organizadas crescendo, há tempos, à margem do sistema político institucional oficial, que se movem mais por causas do que por ideologias ou interesses corporativos. Este movimento é antigo e é internacional… Tem uma curva de crescimento constante e nossos líderes insistem em ignorá-lo.
Enfim, quem cosseguro controlar o fígado e sossegar o coração vai ver muita coisa interessante pela frente.

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Burro velho…

Vai aqui uma resposta a uma ótima pergunta feita por um caro amigo, (mas e hoje, dá para votar no PT?) no contexto da discussão sobre o voto do senador Cristóvão Buarque e sua declaração:

Cristovam Buarque: “Não fui eu que mudei, foi a esquerda que envelheceu.”

….
Caro, como eu disse acima, ele já teve meu voto para presidente!
Mas, a questão é que passei mais de trinta anos dizendo que o PT não era de esquerda, que o PT era o PT… E que ele não era (nem nunca foi) meu farol. Não vou mudar agora, sou um burro velho.

Aliás, tenho pensado muito sobre isso, talvez seja esta a razão pela qual não odeio o PT. E (indulgente?) consigo ver (equivocadamente?) que dele está sendo cobrado um preço desproporcional pelos seus erros e, também, por seus acertos. Com isso nós Brasil estamos retrocedendo gravemente e pagando a conta.

Me recuso a entrar na discussão de se é golpe ou se não é golpe, é uma discussão diversionista, não é o ponto central. Para mim a simples ruptura do calendário eleitoral configura prova de falta de amadurecimento de nosso sistema político, assim como a atuação irresponsável das oposições, que preferiram o caminho da ruptura ao caminho da boa política.

Temos hoje no Brasil todos os mecanismos parlamentares e judiciais para contornar um governo ruim ou corrupto. Basta vontade política. Mas, o que fez a oposição? As pautas bombas, a agenda de confronto e desestabilização. Não conseguiremos citar uma única proposta construtiva ou mitigadora da crise. Ao contrário, todos se esmeraram em mirar bem para jogar a gasolina no centro da fogueira, como quem tenta apagá-la.

Mas, é claro que nós concordamos com o fato de que o PT mudou muito. Apodreceu como os demais partidos brasileiros (mais rápido, inclusive) e paga, além dos outros, o preço da sua própria soberba. Nossos amigos petistas de boa cepa identificaram e reconhecem isto já há algum tempo. Ou não foi soberba o Zé Dirceu deixar o Jefferson quatro horas esperando na sua ante-sala? Ou não foi soberba o Lula não ser candidato a senador depois que saiu da presidência? Ou ainda não ter dado a cabeça de chapa ao Temer na última eleição pra o governo do estado? E vai por aí afora…

Mas o me impressiona mais é que mesmo deposto o PT continue sendo o centro da análise de tantos… e como tal, levando tantos a apoiar, nas ruas e no congresso, este governo.

O que sei é que o PT está fora, que o que a direita tem de pior está no poder destruindo uma agenda que não era apenas do PT, era nossa, e o que se auto-intitula esquerda caviar, europeia, democrática, consciente, esclarecida, histórica, elegante, sei lá mais o que, está indo a reboque mendigando um espacinho na canoa, sem nenhuma proposta para o Brasil.

Em resumo: já que a “minha” Constituinte não vem, estou esperando 2022… :-)

Valter Caldana

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100 ministras

Um belo discurso num país sem ministras.
(ouça aqui)

Valter Caldana

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Vitória! vitória?

Hoje tive uma tarde boa, encontrei muitos amigos.
Achei estimulante ver e ouvir a felicidade nas rodinhas, a felicidade de quem chegou ao poder por se sentir finalmente representado. A felicidade de um grupo que ganhou as eleições, derrotou o passado, acendeu uma luz no fim do túnel, empoderou gente honesta, humanista, sensível, de passado limpo e que combaterá a corrupção com vigor e transparência, deixando inclusive aliados seus irem para a cadeia. Gente nacionalista que sabe valorizar a educação, a cultura e a ciência e tecnologia. Gente que vai parar de lotear cargos, de fazer um presidencialismo de coalização torpe e corrupto, imoral…
Pude ver e ouvir a felicidade única de quem participou de um embate eleitoral duríssimo, defendeu programas claros em praça pública, leu, escreveu, foi às ruas, praças, escolas, universidades, foi aos rincões mais escondidos do país, foi às regiões mais afastadas das cidades para apresentá-lo e defendê-lo, para cativar e seduzir o outro para suas qualidades e, no fim, venceu. Enfim, a felicidade dos poderosos.

A felicidade reinante era tanta que um deles até me disse “estamos com um governo novo há três dias e nada mudou na minha vida… a não ser o fato de que agora entendo o que o presidente da república fala.” Tentei argumentar algo do tipo falar coisa com coisa é uma paga bem pequena por uma ofensa tão grande à Democracia e ouvi, “mas o que você queria?!” Ao responder “respeito ao resultado das urnas e ao pacto democrático eleitoral burguês” recebi como resposta: ah… aí a conversa acaba…
Nesta hora, como na cena da moedinha de “em algum lugar no passado”, depois de me entorpecer com tanta felicidade me dei conta… puxa, mas não foi assim!

Valter Caldana

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