Um assombro nas marginais

Prefeito e governador discutem privatização das marginais.
(leia aqui)

Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.

Vamos combinar, de uma vez por todas, que soluções do século XX para problemas do século XXI não resolvem?

Onde está a dificuldade de entender que por terem promovido um apagão urbanístico na cidade por 40 anos (sim 40 anos!!!!) o nosso déficit urbano é altíssimo? E que este déficit terá que ser superado em pouquíssimo tempo, enquanto cidades de mesma importância o fizeram em 45 anos?

Por fim, onde está a dificuldade de entender que as alterações urbanas necessárias para a cidade têm um componente material – a cidade em si mesma – mas têm um componente muito mais importante que é imaterial, que é a cultura de cidadania e apropriação dos espaços por parte da sociedade?

Que fique claro, sob pena do colapso, que nós, cidadãos paulistanos de hoje, teremos que dar este salto cultural em apenas uma geração enquanto outras cidades no mundo o fizeram em três gerações…

Não é a primeira vez que São Paulo fará isso… aliás, São Paulo existe por ter sido capaz de fazer isso no século XX. Seremos nós, paulistanos, capazes de fazer isso de novo no século XXI ou nos acomodaremos numa zona de conforto desconfortável e instável, acometidos pela letargia da preguiça e flertando com o colapso da cidade como uma velha senhora quatrocentona se apegaria ao seu palacete em Campos Elíseos?

Vambora São Paulo, Tá no hora! O século XXI já vai alto!!!!!

continua …

Valter Caldana

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Ainda sobre as Marginais

segue de Um assombro nas marginais

Ainda sobre as sobre as marginais…

Sim, elas são estratégicas para o desenvolvimento urbano da cidade. É alvissareiro que finalmente se desperte para isso. Só que…

Só que em função do apagão urbanístico que vivemos se está agora pensando nas marginais com parâmetros da década de 1970, de novo!!!

É como um sujeito que sai do coma 40 anos depois e só consegue ver o mundo a partir de seus próprios parâmetros. É pior que Adeus Lênin!!

É o que explica, por exemplo, pensarem em vender glebas (Anhembi e outras) ao longo delas num lóbulo do cérebro e privatizá-las (ou seja, dar-lhe vida própria) no outro lóbulo…
Como se não houvesse nenhuma relação entre o rio, as marginais, as glebas e os terrenos lindeiros, a cidade, a qualidade de vida do cidadão e, de quebra, uma montanha de dinheiro que este sistema junto pode gerar.

Montanha de dinheiro esta muito maior do que os montinhos que a operação fragmentada pode imaginar… Sendo que, para piorar, a operação fragmentada não altera a matriz de crescimento da cidade, ao contrário, a reafirma. Ou seja, joga tudo no colapso!!!

Não dá, no século XXI, para fazer planejamento setorial… Se ele existiu mesmo, morreu há meio século… Só no Brasil seu fantasmo continua circulando.

As marginais foram feitas num momento em que se julgava correto atravessar uma cidade, veja bem, ouça bem, cheire bem, uma cidade (!!!) com uma auto-estrada! Em que ainda se achava que era uma benção termos tantos córregos para poder fazer avenidas bem baratinho.

Para poder fazer avenidas bem baratinho para que pudessem correr “ominibus” sobre pneus ao invés de sobre trilhos para que eles chegassem mais rápido a terrenos também bem baratinhos, cada vez mais longe da… cidade!!

Pois bem. Este período, a meu ver, tem imunidade plena. Não cabe julgá-lo. Mas cabe analisá-lo e, pelo amor de Deus, aprender com ele!!

Por isso, a simples ideia de que as marginais possam ser privatizadas assusta. Não pela privatização, mas por sua perpetuação!!

Em 1998 (vinte anos!!!) no contexto do Concurso de Reestruturação da Marginais promovido pela Prefeitura e organizado pelo IAB e ABAP (fui o arquiteto consultor junto com Rosa Kliass e Luciano Fiaschi) já propúnhamos que as marginais fossem administradas por um ente específico.

Um ente que congregasse as três esferas de governo e as quase trinta (30!!!) empresas públicas, mistas e privadas com atuação sobre a área… Portanto, não é novidade.

Só que, na época, propúnhamos um ente executivo, uma espécie de Authority, uma agência com orçamento próprio e capacidade de ordenar o território e não apenas faturar com ele…
Objetivo final… urbanizar (!!!) a área.

E, olha… era governo Pitta.

continua …

Valter Caldana

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Um detalhe de 6 bilhões

segue de xxxxx

Mais um pequeno detalhe sobre as marginais…

Aquela última intervenção feita ao custo atualizado de mais de R$6.000.000.000,00 (seis bi – lhões) de reais (acredita?) para dar naquilo que todos dissemos, gratuitamente e com antecedência, que daria… já prevê o pedagiamento da expressa.
Quem souber ler planta que olhe.

Trecho de uma reportagem bem antiga… de 18 anos atrás. (leia aqui)

“Segundo Caldana, o projeto também apresenta falhas. A principal, diz, é tentar resolver os problemas de trânsito esquecendo das questões urbanísticas.
“Vamos minimizar os congestionamentos por um tempo e deixar de lado outros pontos importantes, como a impermeabilização do solo, que inevitavelmente vai agravar ainda mais o problema das enchentes”, disse Caldana. “Além disso, a qualidade de vida da cidade vai ficar ainda mais deteriorada. Em vez de tirar carros, vamos mandar mais veículos ainda para a marginal.” 01/10/1999

Valter Caldana

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Tudo certo, nada resolvido…

A vitória de Macron permite considerar o que disse aqui há algum tempo. Os resultados eleitorais dos últimos 12 ou 24 meses não indicam, necessariamente, um avanço da direita no mundo, como tem sido rapidamente lido aqui e acolá.

Muito menos podem ser entendidos, óbvio, como a reafirmação de princípios clássicos da esquerda ortodoxa. Nem mesmo da heterodoxa… O fato é que o jogo está empatado. Ainda que esteja um claro 1×1 “prá eles” sejam eles quem forem.

Mas, há uma terceira força, esta sim a que mais cresceu nos últimos tempos: a abstenção, somada aos brancos e nulos. É agora um jogo de três, não mais de dois… Esta é a grande novidade, não uma propalada vitória da direita.

O que se tem são, na verdade, resultados eleitorais que mostram claramente o esgotamento do sistema de representação e do modelo de estruturação político-partidária vigente nas grandes democracias ocidentais. Daí o fato de teem todas sido eleições tão duras, com resultados tão apertados em primeiro turno.

Simplificando: o descolamento dos representantes de seus representados e da vida real se tornou insustentável. O que se nota, de fato, é uma busca desesperada do eleitorado por soluções alternativas, posturas alternativas, discursos alternativos, propostas alternativas. Que voltem a responder às suas questões reais, cotidianas, práticas

Por certo, depois de abertas as urnas, o que se tem é bastante claro e bastante lógico, quase esperado: os truculentos americanos votam Trump, mas Hilary quase leva e Obama não sai derrotado; os históricos italianos dão um calma lá bambino no Renzi e em sua brilhante proposta de “fechar” o Senado Romano; os isolados (posto que uma ísola) ingleses votam o Brexit e… se isolam; os carinhosos brutalistas alemães vão dando oxigênio controlado para a democrata Merkel e os Russos vão se virando com seu Czar do coração…

Aos franceses, portanto, nada mais natural que votar num jovem meio subversivo, meio conservador, meio agitadinho, meio mal humor. Mas que, na hora H, hoje, deram um sonoro e histórico 6 a 3 na xenofobia suicida…

Pois bem, estereótipos e pré-conceitos à parte, brincadeira feita, o fato é que o recado está dado pelos eleitores da primeira classe da Democracia Ocidental. Como está fica, mas não dá mais.

Para mim resta uma pergunta: se está claro que o modelo não se sustenta mais, será que a Democracia representativa burguesa, que o inspirou, é ainda necessária? É ainda viável?

Este século XXI, se houver, vai ser mesmo bem interessante…

Valter Caldana

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O impeachment de Hollande.

É impossível não pensar em como dois países tão diferentes, em estágios de desenvolvimento tão diferentes, com culturas tão diferentes, de tamanhos tão diferentes, saíram de uma situação tão parecida – um governo ruim (?) e uma eleição empatada – de forma tão diferente.

Um, se fortalece e se reafirma. O outro, se desmancha e se destrói.

Valter Caldana

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