País de joelhos – Bárbara Gancia

Texto da Bárbara Gancia no facebook.

Esse Congresso que temos, e que lamentavelmente deve dizer muito sobre a sociedade que estamos fabricando, é o pior da nossa história.
Um lixo inimaginável.
Bancada antigay, PL anti “heterofobia”, “cura gay”, é a contramão da história…
Entra impeachment e sai impeachment da pauta todo santo dia e o país paralisado por conta de um camarada, parece filme do Buñuel!
E isso tudo para satisfazer aos vendilhões do Templo.
Bancada da bala promovendo a volta do bangue-bangue -vê se pode?- bancada “televangélica” que lê a Bíblia de forma tosca e literal pra atender seu público, ou seja, aquela parcela da população órfã do atendimento do Estado que não foi abraçada pelo crime organizado nem é “herdeira” (como diria a revista “Caras”)…
São os denominadores mais baixos e tenebrosos, os pilares mais indesejáveis para se edificar um futuro.
Imagino Ruy Barbosa, Castro Alves, os inconfidentes mineiros tendo espasmos no túmulo.
E como se não bastasse um covil, há dois.
Ninguém, Serra, Alckmin, FHC, Suplicy, Mercadante, Berzoini, Delcidio… NENHUM político de que se tenha conhecimento consegue viver do salário oferecido pelo Erário.
Mas nunca se ouviu falar de a Polícia Federal tocar o pé na porta na madrugada para realizar uma busca e apreensão no escritório ou na casa do filho do FHC ou dos filhos do Serra.
Aliás, graças a Deus, porque seria uma verdadeira infâmia. Como bem afirmou ontem o José Serra.
Ainda bem que alguém teve a coragem de enfrentar a ira dos ignorantes e se insurgir contra essa violência seletiva da PF.
Quiqui é isso, minha gente?
É inacreditável o grau de desfaçatez a que chegamos. Tentar impedir que Lula se candidate novamente dessa maneira chega a ser ridículo.
E muito perigoso. Porque, goste ou não, Lula é liderança legítima admirada mundialmente. E com uma legião de seguidores aguerridos como vimos ontem na comemoração do seu aniversário.
Essa campanha para tentar polarizar o país e varrer o PT do mapa é de uma irresponsabilidade sem precedentes.
E tem limite até onde vai essa polarização maluca. Ele esbarra na luta armada.
Mas tem um monte de gente que além de não perceber ainda aplaude a desastrada ação da Polícia Federal.
E enche o buraco de bolo que tem na cara pra falar no “filho do Lula”.
Aliás, o povo nem se dá conta de que o Lula tem mais do que um único filho!
Olha só. Acompanhe o meu raciocínio (eu sei, eu falo pra caramba, mas me dá só mais um minutinho, vá?) e tente perceber o preço que estamos pagando pela 1) “burritzia” (antônimo de intelligentsia) dos tempos da ditadura e 2) a era em que a turma se ufanava de dizer que estava pouco ligando pra política e iria descontar votando no Tiririca:
Pois então: até quando vai dar pra segurar essa camada de ignorantes politicamente acéfalos das camadas de renda média e alta que fica aí de forma grotesca vociferando a favor da “maioridade penal”?
Esses bocós não se dão conta do que vem a ser o PCC?
Parece normal a você, meu dileto leitor, que uma organização criminosa nascida com o propósito de dar respaldo à população carcerária, e que agora, no vácuo da presença do Estado já comanda o roubo de carga, a violência urbana (todo batedor de carteira paga dízimo pra essa máfia), a invasão de imóveis no centro, a adulteração de bebidas e medicamentos, o roubo de cabos, fios e tampas de bueiros, a danificação de equipamento público, as ações orquestradas do bloqueio nos transportes, a roubalheira no futebol, a jogatina ilegal, que chega a queimar 30 ônibus ao dia e dá voz, dia sim, dia não, a toque de recolher nas comunidades da periferia, tudo isso e mais, sem que a opinião pública tenha a menor ideia de que isso acontece porque a ordem de cima é “não dar voz e não fazer propaganda de organização criminosa”, parece normal pedir que se coloque mais gente na cadeia diante dessa conjuntura?
A ignorância é tão pornográfica que o pessoal nem sequer reclama do próprio sistema patrimonialista -que nunca caminha para a democracia com economia de mercado.
A gente continua se conformando com a existência dos Agripinos Maias da vida, ou (até ontem) com o Eduardo Cunha. Somos complacentes com o fato de que o doleiro Youssef opera em sucessivos governos desde praticamente o grito do Ipiranga.
E a PF tem a cara de pau de invadir o escritório do filho do Lula pra procurar “dinheiro de comissão”?
Fala a verdade?
Estou ao lado de Lula e do Serra nesta hora e, como pagadora de impostos (contribuinte é o escambau!) e eleitora eu me sinto profundamente ofendida e agredida com a cara de pau e a demagogia dessa FACÇÃO da Polícia Federal em sua guerrinha particular contra outra facção.
Esses irresponsáveis estão colocando o meu país de joelhos e os acéfalos que se dizem “gente de bem” não tem moral e nem se deram ao trabalho de se informar ou estudar pra saber do que estão falando ao aplaudir essa blitz. Só estão tentando mesmo é salvar seu fiofó.

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Anhangabaú: símbolo da construção da cidade

Artigo publicado no Estadão Noite de 08/09/2015
sobre a anunciada reforma da esplanada do Vale do Anhangabaú.

Anhangabaú Estadão Noite

Anhangabaú Estadão Noite

Valter Caldana

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ZER x ZCor: David e Golias ou A Cizânia?

Fui interpelado por algumas pessoas em relação à minha posição quanto aos corredores comerciais em zonas exclusivamente residenciais, a já famosa disputa ZER x ZCor.

Pois bem, em poucas palavras, a quem interessar possa, se é que interessa a alguém além de quem me interpelou, posso dizer que:

. Sou e sempre fui favorável à manutenção das ZERs (antiga Z1) no zoneamento da cidade. Como menino do interior e depois paulistano que cresceu em uma delas e como amante da cidade e da cidadania, longe de mim achar que devem ser destruídas.

. No entanto não se pode fechar os olhos para o custo social da manutenção de áreas exclusivamente residenciais de baixíssima densidade em áreas centrais e/ou super equipadas da cidade. Há diferenças enormes entre ZERs nestas áreas e aquelas localizadas no terceiro cinturão ou além rios. Não dá para querer morar em “Pinda” e viver a 500 metros da Paulista simultaneamente. Para isso, paga-se. (Antes das vaias, favor ler o ponto anterior da argumentação)

. Há, também, que se considerar que existe uma diferença brutal entre as ZERs de baixíssima densidade e as ZERs de média densidade, conhecidas até aqui por ZEIS (sim, isso mesmo, as Zonas Especiais de Interesse Social são ZERs também… pasme!) A diferença entre elas está na densidade e na localização, portanto no seu custo social, e não no perfil sócio econômico dos deus moradores. (Só para esclarecer a constatação anterior… qual a diferença entre um condomínio e um conjunto residencial?)

. Portanto, aparentemente a grita com relação às ZERs não é em função do uso (pois ZEIS são ZER também, só que de maior densidade e menor custo social) mas sim em função do uso e da densidade! Trocando em miúdos, de modo direto… transformar os jardins entre a Brasil e a Faria Lima em ZER de média alta densidade pode? Predinhos de 4 a 6 andares, modelo Paris, Barcelona ou conjunto da hípica em Pinheiros, de uso exclusivamente residencial pode? É ZER também! Certamente a resposta será não, o que confirma a verificação de que o problema está mais na densidade que no uso. Só que é a densidade que provoca o maior custo social das ZER em áreas centrais super equipadas, não o uso.

Mas, continuando:

. As zonas corredor (atuais ZCor antigas Z8) nasceram a partir da mesma Lei que criou as Z1, na década de 1970. Portanto, não são novidade alguma, como aliás quase nada nesta proposta de PL do Zoneamento.

. Os corredores sempre tiveram o papel de “amortecer”, amolecer a transição entre uma Z1 e uma Z2, Z3, Z o escambau a quatro. Isto por que logo depois de definido o Zoneamento em 1972 (que começou com singelas 4 zonas de uso na cidade) se percebeu, já naquela época, que não se muda de zona como se muda de canal na TV… há que haver zonas de transição. Percepção esta, diga-se de passagem, que colocou de imediato em vários urbanistas a dúvida quanto à eficácia do zoneamento baseado em índices (modelo vigente em São Paulo até hoje) como instrumento de desenho da cidade.

. Além de amortecedores, as zonas corredor sempre funcionaram como “protetores” das Z1, mais ou menos do mesmo modo que o comércio entre quadras protege as super quadras de Brasília… Uma espécie de cinto de segurança, filtro, uma cintura pretoriana.

. Nestes 40 anos se aprendeu duas coisas de modo irrefutável: (i) na metrópole o que cria e sustenta o ponto comercial é o fluxo de pessoas – massa crítica de consumo – muito mais que as outras condições canônicas para a existência do comércio (fácil acesso, mão de obra abundante, proximidade do mercado consumidor, energia e infra-estrutura farta, grandes áreas disponíveis para estocagem, etc.) e (ii) assim sendo, não há zoneamento, delimitação territorial, que resista ao desenho imposto pelo fluxo de pessoas, em especial o fluxo de automóveis e transporte público.

Deste modo, sintetizando minha posição sobre esta discussão:

. Acredito que se trata de uma discussão (ZER x ZCor) bizantina, inócua e descabida, imposta por uma proposta de Lei que insiste num modelo de zoneamento superado, baseado em índices, tabelas de uso e excesso de zonas. Um modelo que nos últimos 40 anos se mostrou segregador, caro e injusto.

. A discussão ZER x ZCor não é a mais importante da revisão da lei do Zoneamento. E, pior, tem funcionado como uma espécie de cortina de fumaça, desviando a atenção da sociedade mobilizada – nos dois campos – para as questões centrais e estruturadores do futuro da cidade, a começar do próprio modelo de Lei velho e requentado que estamos engolindo goela abaixo sem o devido debate.

. No caso específico de ZER x ZCor isto é ainda mais perverso pois todos, moradores, proprietários, comerciantes e transeuntes destas áreas são vítimas do modelo vigente, engalfinhando-se por migalhas e quireras enquanto o essencial do futuro do desenvolvimento urbano se discute e se decide em outras esferas.

. Insistir nesta dicotomia entre zonas é desconhecer (para alguns), negar (para outros) ou desconsiderar (para muitos) que a cidade não é uma colcha de retalhos, um amontoado de fragmentos organizados em torno de interesses corporativos, de castas, grupos ou classes sociais. A cidade é um organismo vivo complexo, contraditório, diversificado, heterogêneo, multicelular e interdependente, onde cada parte funciona solidária entre si e com o todo.

. Não é a proximidade do comércio que coloca em risco a existências das ZER de baixíssima densidade, mas sim o desvio do trânsito para dentro delas, transformando ruas locais em coletoras e até arteriais, despertando o interesse e a viabilidade do surgimento de pontos comerciais. Vale lembrar que este processo teve início há mais ou menos 25 anos.

. Portanto, não é limitando o tipo de uso do solo nos corredores através de índices que o problema será solucionado. Como na piada sexista, isto é apenas vender o sofá. Num modelo de Lei e de cidade que gera zonas de direito (pintadas no papel) e de fato (as que acontecem nas ruas da cidade), o que protegerá de fato e de direito as zonas exclusivamente residenciais será impedir que o trânsito seja desviado para dentro delas.

. Para isto, é imprescindível que se supere o modelo rodoviarista e disperso de desenvolvimento urbano que prioriza o automóvel, o que nos coloca novamente no início da questão. Mais correto ainda seria associar a isso a mudança do modelo da própria Lei, levando à escala do Projeto Local a definição da materialização (calçamento, arborização, sinalização, altura, largura, volume…) e dos padrões de uso e incomodidade que cada atividade. Não adianta discutir vizinhança na escala global, esta deve ser discutida na sua própria escala, que é a … vizinhança!

. Seja como for, para proteger as ZERs de baixa ou de média densidade, de imediato, é preciso eliminar o trânsito de veículos do seu miolo. Para isso será necessário sobrecarregar o viário lindeiro, a saber, as vias coletoras, as arteriais e as rápidas, que ficarão ainda mais lentas.

. Ou seja, estar-se-á dizendo não à histórica prioridade dada à fluidez dos automóveis, privilegiando-se despudoradamente o um novo modo de vida, o cidadão, as vias locais, os deslocamentos a pé, a cidade mais lenta e menos estressada, os deslocamentos de curta distância e a intermodalidade para médias e longas distâncias, entre outras características fortemente desejadas senão por todos, ao menos por muitos.

. Se estará, portanto, caminhando no sentido do abandono total do protagonismo e dos privilégios dados aos carros particulares e ao modelo de desenvolvimento urbano disperso e rodoviarista, por ser caro para os que pagam, segregador para os que sofrem e injusto para todos.

. Se estará admitindo o colapso do modelo vigente, a necessidade do novo modelo e, então, se estará dizendo sim aos congestionamentos de automóveis durante a fase de transição da cultura e do uso e ocupação do solo, sim à cidade compacta, sim à prioridade à intermodalidade, sim à descentralização econômica e dos investimentos…

Para isso, será necessário que a sociedade, como qualquer pessoa diante do tratamento de uma doença mortal, pense mais na alegria do futuro do que no amargor do presente. E, de quebra, pense mais como pedestre e cidadão do que como motorista e consumidor.

Estamos preparados? Estamos dispostos?

Valter Caldana

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E aí?

Acabou a eleição?

Valter Caldana

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Quando um não quer, dois numbriga?

Vamos ousar pensar ao contrário, exercício muito prático em questões de cálculo, de matemática avançada e geometria, filosofia e, não raro, política:
Dilma insiste com Mercadante (por quem nunca nutri especial simpatia), com Cardozo (por quem já nutri alguma simpatia quando vereador) com Janot (de quem nem me atrevo a falar nada), que até onde sei estão garantindo a continuidade das investigações e resistindo à investidas contra as mesmas que vêm de todos os lados. Pois bem…
Dilma assume, e insiste, em um ministro e uma política econômica que reconhece e desnuda seus erros na prática e assume um programa (transitório?) econômico que irrita e deixa uma amarga sensação de traição em milhões de seus eleitores, dando razão ao discurso oposicionista. Pois bem…
Dilma peita o Legislativo, por convicção e por in”habilidade” (incompetência?) política, em seus dois mandatos, e perde o apoio de todas as raposas do Congresso e de sua zona orbital, incluindo aí seu criador Lula e em boa medida de seu partido de adoçao, o PT, que permanece num silêncio sepulcral (silêncio contundente e assustador para quem conheceu o PT desde a fundação…)
Dilma é a Presidente eleita legitimamente em votação direta e secreta para governar o país nos próximos três anos e meio.
Vivemos (infelizmente, já que sou um parlamentarista convicto) num regime único de presidencialismo de coalizão, que abre portas para a corrupção… Pois bem…
Com quem estamos brigando? Com quem devemos brigar? Por que? Por quem?
Valter Caldana
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