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O governo anuncia corte de três bilhões de reais em incentivos para a indústria!
Diante deste quadro, o apoio da FIESP a este governo é tão louvável quanto a atitude da famílias, dezenas de milhares delas, que ao não mais precisar, se descadastraram do bolsa família.
É muito edificante ver isso, a renúncia da iniciativa privada a estes inaceitáveis incentivos setoriais com dinheiro público. Certo?
Oooops, não, não, para tudo… O montante de isenções e desonerações, a chamada bolsa empresário, neste ano de déficit de 180 bilhões, é de 280 bilhões… Ah! três tudo bem…

Valter Caldana

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As marginais e seus equívocos.

Para que qualquer discussão sobre as marginais seja produtiva é imprescindível que se perceba que não se trata de um problema viário, mas antes uma questão de urbanismo.

Além de todos os problemas que já vem sendo apontados por especialistas através da imprensa sobre o plano de aumento das velocidades nas marginais, o “marginal segura”, com suas misturas de conceitos e princípios projetuais, é preciso acrescentar uma questão importante: discutir as marginais só pela equação [velocidade + fluidez + segurança] é mais um grande equívoco, talvez o maior de todos. Trata-se de equívoco já cometido fortemente na gestão Serra na prefeitura e no governo do estado e, ainda que menos intensamente, também na gestão Haddad.

Infelizmente, a nova gestão que se inicia está perdendo a chance de superar este equívoco histórico e se diferenciar positivamente do passado recente em virtude de um arroubo de campanha do prefeito eleito. Um arroubo que nos dá a indicação de que o mesmo está discutindo a cidade a partir de uma matriz pouco ambiciosa do ponto de vista urbanístico, o que é grave para o momento histórico que vivem a capital e sua região metropolitana.

É imprescindível que se perceba que o problema das marginais é metropolitano, é econômico, é ambiental, é cultural, é histórico e, por isso, é urbanístico, não é viário! Trata-se de um problema que está associado ao planejamento e execução do rodoanel, do ferro anel e do hidro anel, projetos e obras de médio e longo prazo que devem ser grafados como projetos de Estado e não de governos. E, a partir disso, as intervenções devem ser projetadas e não simplesmente implantadas.

Considerado isto, é urgente que se considere no curto e curtíssimo prazos – uma gestão, quatro anos – que a pista local das marginais sejam transformadas em avenidas urbanas e suas margens, milionárias do ponto de vista do valor da terra e do potencial construtivo, sejam ocupadas com usos humanos economicamente mais eficientes e produtivos,, ou seja, usos mistos – comércio, serviços e habitação – e não apenas os atuais usos rodoviários.

É imprescindível que a cidade e seus gestores atentem para o potencial construtivo e, portanto, de negócios, de aquecimento da economia, de arrecadação de impostos, de criação de empregos, que a região possui. Um potencial tão grande que a conta é fácil de ser feita e seu resultado teria tantos zeros que mal caberiam neste texto. por este motivo, por exemplo, que o município não pode abrir mão da propriedade das áreas do Anhembi/Sambódromo e seu entorno dos dois lados do rio e deve brigar como um cão feroz pelas áreas do Campo de Marte a que tem direito.

Privatizar os negócios e atividades que lá funcionam, ação correta em princípio, não deve se confundir com a alienação das áreas, patrimônio valiosíssimo como se pode depreender pela simples observação de sua posição estratégica na Região Metropolitana de São Paulo. Trata-se de área equivalente a dois Ibirapuera, pronta para ser bem utilizada nos próximos trinta anos.

Indo além, discutir hoje as marginais significa admitir que os rios devam ser reaproveitados para transporte, recreação e estruturação paisagística da metrópole e suas transposições (pontes e viadutos) devam ser projetadas como elementos urbanos de uso misto: pedestres + bicicletas + transporte público + transporte de cargas + automóveis e não apenas estas pontes mono modais de hoje, algumas delas inclusive sem sequer calçadas para pedestres.

Estas transposições devem necessariamente dar acesso às margens dos rios, que devem ser utilizáveis pela população e onde deve ser implantado um sistema de transporte ponta a ponta sobre trilhos que seja integrador das linhas de ônibus/corredores (além da CPTM) que a cruzam, com estações intermodais e de serviços.

E, sim, a pista expressa pode e deve ser usada como expressa… Neste caso, como provocação, que se pense então em ali liberar a velocidade, cobrar pedágio e, por que não, em tempos privatistas, cobrar o socorro quando o cidadão arrebentar a SUV ou a Brasília amarela andando a velocidades incompatíveis com suas habilidades de motorista. Por fim, como tivemos oportunidade de propor ainda em 1999, as marginais devem ser consideradas uma unidade administrativa autônoma, uma agência de desenvolvimento ou mesmo uma subprefeitura ou prefeitura regional, como propõe o novo prefeito.

Para quem leu até aqui e pensou: mais um arquiteto e urbanista sonhador e inconsequente (ou algo mais clemente… agradeço) lembro que quase tudo o que está descrito neste texto daria para ter sido feito com o que ali se gastou nos últimos dez anos. Afinal, naquele local árido, inóspito, subutilizado e  amedrontador se gastou no período a bagatela de quase R$9.000.000.000,00 nove bilhões de reais corrigidos ao dólar de hoje, sem contar o que foi gasto com rebaixamento da calha, impermeabilização das margens e outros custos.

Sempre é importante lembrar que estamos discutindo hoje (ou desde que foi elaborado pela prefeitura o plano SP2040 na gestão Kassab) o que será desta cidade nos próximos 50 a 80 anos…

Precisamos, portanto, mirarmos naqueles que construíram nosso presente nas décadas de 1930, 1940 e 1950 do século passado, sessenta, oitenta anos atrás. Coragem, visão de futuro e empreendedorismo. Acolhimento, liberdade de ação, multiplicidade racial e cultural, convivência entre os povos…

Isto é São Paulo! Não vamos inventar a roda, vamos aprender com os erros e os acertos do passado. É urgente.

Valter Caldana
Professor e Coordenador do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro do Conselho Municipal e Política Urbana.

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CEAGESP: atacado ou varejo?

O Estadão traz boa matéria sobre decreto do prefeito que nos deixa que abre caminho para a mudança do entreposto de abastecimento da cidade e, consequentemente, para a venda de sua área. Trata-se de assunto da maior importância para o futuro de São Paulo a médio e longo prazo. São Paulo cidade e São Paulo metrópole. <leia aqui>

No entanto, indo um pouco além, creio que é importante lembrar que há uma série de questões a serem debatidas na venda do terreno do Ceagesp, e um grande alerta: tudo indica que ali se vai cometer o mesmo equívoco observado na venda da gleba Telesp na Barra Funda… o equívoco de vender a área in totum, inteira e sem projeto desenvolvido…

Todos aqui já me ouviram dizer que as prefeituras têm que poder ter um banco de ativos reais, um banco de terras, com agilidade para comprar e vender e , deste modo, participar do mercado imobiliário usando todo seu poder de compra para influir no preço da terra não apenas de modo indireto, através da instalação de melhorias e implantação de infra-estrutura e estoques virtuais gerados pelo zoneamento.

Este caso é típico: preocupa-se com o macro e mais uma vez se deixa de lado o desenvolvimento de projetos para a cidade na escala humana, na escala real, O que se tem ali, fora os engavetados no Martinelli e nas Universidades, são pálidas diretrizes de uso, discursinho frágil.

Ao vender a área de uma só vez a prefeitura perde a oportunidade de participar do mercado, perde a possibilidade de auferir legítimos ganhos participando do melhor negócio do mundo em todos os tempos, que é comprar terra por alqueire e vender por metro quadrado e perde a oportunidade de capilarizar o ativo, ampliando a base de empresas e empreendedores com capacidade de participar do negócio.

Sim, pois quantas empresas podem comprar uma área de 700.000 m² ao custo na casa de bilhão e quantas poderiam comprar, por exemplo, 20 áreas de 35.000m²? Será que não é mais saudável esta ampliação da base? São Paulo foi construída pelo pequeno e médio capital, por que não incentivá-los? Lembrando que 40.000m² é o máximo que pode ter o terreno de um empreendimento segundo o novo PDE.

Fora tudo isso, há uma questão de oportunidade… por que vender tudo de uma vez e por que vender em momento de baixa? O cronos da cidade não é o cronos dos homens!

Ou seja, erra-se acertando: transferir o Ceagesp é bom, vender a área tem sentido (ao contrário da área do anhembi) mas perde-se mais uma vez uma gleba através da qual se poderia fazer política de desenvolvimento urbano real, com desenho urbano na escala do cidadão, com desenvolvimento do mercado, com ganhos coletivos e remuneração do capital investido. Fora, claro a sempre presente questão de adensamento e produção de habitação, HIS e HMP.

Sugiro aos interessado que dêem uma busca pelo projeto Bairronovo*, que foi feito para a gleba Telesp, a gleba Pompéia e os CTs, na Barra Funda e comparem com o que foi feito depois da venda da área “in totum“, como tudo indica será feito com o Ceagesp.

Enfim, é a diferença entre planejar o cardápio ou simplesmente vender o almoço para comprar o jantar.

Valter Caldana

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Saberes elegantes e generosos

Texto que a revista AU, através de sua editora Mariana Barros me convidou para escrever por ocasião da morte do Mestre Arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva. Foi uma honra e um privilégio ter convivido com ele e poder registrar esta homenagem.

Valter Caldana
AU 270 – Documento – Pedro Paulo de Melo Saraiva

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Um gigante na Sé

De como um homem muda a geografia de uma cidade: Anhangabaú, Paulista, estes novos centros de encontro e manifestação vieram depois, muito depois, aos poucos…

Anos duros, anos cinzas, anos de chumbo, anos em que éramos assaltados em nossas materialidades e nossas imaterialidades… lá se iam nossas riquezas mas também lá se iam nossa dignidade, nossa identidade, nossa liberdade, às vezes nossa esperança…

Mas havia uma cidadela, um ponto de resistência e simbolicamente este ponto era o marco zero da cidade, a Sé… E dentro dela um gigante.

Um gigante franzino, fala mansa, quase irritante de tão mansa (para um jovem de pouco mais de 16 anos tornava-se às vezes insuportável, interminável), andar suave, sorriso permanente nos lábios e um brilho no olhar que iluminava a tudo e a todos à sua volta. Um gigante dentro da Sé. Havia um gigante dentro da Sé.

Para lá corriam os pobres, os desvalidos, os marginalizados que eram tantos… são tantos, somos tantos. Porta sempre aberta, o gigante sempre pronto a acolher, a ajudar, a proteger…

Enquanto ali esteve, uma Sé nunca foi tão Sé em uma cidade.

Toda e qualquer manifestação, contra a ditadura, a carestia, contra o desemprego, a missa do Vlado, a favor da anistia, ampla, geral e irrestrita, a favor dos pobres, a favor da justiça e paz, a favor da autodeterminação dos povos, a favor dos índios e dos imigrantes e exilados, a favor da vida… todas estas manifestações aconteciam na Sé…

O primeiro comício a favor das diretas foi lá… Sob a guarda e a proteção do gigante. Tínhamos todos a clara sensação que ao menor sinal de perigo, de covardia, aquelas portas estariam escancaradas e lá dentro estaríamos todos protegidos. Como de fato tantas vezes ocorreu.

A Sé era o centro nervoso, pulsante, libertário…

Mesmo ferida, atacada por projetos urbanísticos e pela violência do Estado continuava a ser a Sé. O centro das atenções, o grande espaço articulador da cidade, a referência de fé e de cidadania. Enquanto lá esteve o gigante assim foi.

Agora ele ali restará para sempre, na sua cidadela, na nossa cidadela, a nos proteger como sempre fez. A simbolizar a luta por justiça e paz, por dignidade para todo ser humano, pela eliminação da pobreza e das desigualdades, pela liberdade de ser, de pensar e de agir. A simbolizar o amor pela juventude e o carinho pelas crianças. A paixão pela vida.

Na Sé, agora, mora um gigante. Que é o marco zero de São Paulo, Dom Paulo, Cardeal Arns…

Muito obrigado!


Valter Caldana

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