Desmazelo: é assim que se faz cidade?

O largo da batata inaugurado hoje é o melhor exemplo do resultado do desrespeito geral à qualidade dos projetos.
É esta a cidade que construímos.
Projeto inicial jogado fora, desenvolvimento viciado por normas medíocres e ineficientes e obra descaradamente desmazelada e de quinta categoria realizada sem a menor qualidade, ao vivo e a cores, a olho nu, para quem quisesse ver.
E, só lembrando, passou por 5 governos e 4 prefeitos – do PT, PSDB e PSD.
(E o Prefeito Hadad assume o ônus de “inaugurar”… começo a me perguntar se ele tem amigos na Prefeitura)
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E ainda tem gente que defende a Lei 8.666 e, o que é pior, quer que as construtoras se responsabilizem pelo (não) projeto das obras públicas.
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Só para lembrar, o projeto original foi vencedor de um Concurso Público realizado pelo IAB, era de autoria do Arq. Tito Lívio Frascino.

Valter Caldana

Entrevista JP em 2012 sobre o assunto

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São Paulo é planejada, sim!

A Folha de São Paulo traz uma bela matéria sobre a Radial Leste (leia aqui), a principal avenida de São Paulo no que diz respeito a tamanho e uso.

A preocupação no momento é evitar que nossos visitantes peguem um grande congestionamento nos seis jogos da copa do mundo que acontecerão no Itaquerão, que fica em uma de suas extremidades.

Em minha opinião, como tudo com relação à Copa da FIFA 2014, preocupação exagerada. São 60.000 lugares no estádio, portanto, nada além de um Corínthians e Palmeiras… Ou seja, pelo menos disso a CET deve dar conta.

Seja como for, escrevo aqui por outro motivo. A matéria da Folha traz uma declaração em que digo que a Radial é uma das provas de que São Paulo é uma cidade planejada.

Pela primeira vez esta antiga tese que defendo, que vai na contramão da verdade absoluta repetida ad nauseam de que São Paulo cresceu desordenadamente, aleatoriamente, deverá ganhar um número significativo de leitores.

Nesta tese, defendo que dizer que a cidade não foi planejada, cresceu de modo espontâneo, de modo meio marginal, ao arrepio das forças legais e legitimamente constituídas é, na verdade, um enorme mecanismo de auto indulgência, que joga para baixo do tapete uma verdade que ninguém quer ver de fato:

São Paulo foi, sim, ao longo do século XX, uma cidade minuciosamente planejada. E, deliberadamente, pessimamente desenhada e construída.

Desenhada e construída com desleixo, sem respeito para com o cidadão, o ambiente e para com seu próprio conjunto de Leis e normas, sobretudo nas suas áreas de expansão ao sul e à leste. Fruto de uma política deliberada de fortalecimento do extrativismo urbano, que viabilizava o rápido parcelamento do solo – legal ou ilegal – e propiciava de um lado ganhos gigantescos e de outro o abrigo, a qualquer custo, do enorme contingente de mão de obra necessária ao desenvolvimento paulista naquele momento.

Esta tese não seria importante não fora o fato de que, enquanto continuarmos comodamente acreditando que a cidade cresceu, e por extensão, cresce, aleatoriamente, continuaremos sem a menor chance de superar verdadeiramente suas contradições e ajustar os rumos de seu crescimento.

Um exemplo disso, a recente obra de ampliação das marginais. Bilhões gastos (sem planejamento?) para manter um modelo de cidade que está em colapso, que já não se viabiliza, que já não nos interessa… Quer mais? As linhas aéreas de transporte coletivo construídas, coincidência, a sul e a leste… Quer mais? O atraso do Rodoanel, o silêncio em torno da necessidade de se fazer o ferroanel… Quer mais? As decisões tomadas no campo da Habitação e da qualificação dos espaços públicos.

Enfim, é chegada a hora de enfrentar o fato de que São Paulo foi planejada para ser o que é. Bonita, chique, equipada, funcional – até o transporte coletivo, mesmo que lotado, funciona – no eixo de altos investimentos centro-sudoeste e baixa, sem densidade, carente de serviços e muitas vezes de infra-estrutura básica, ilegal, das áreas a sul e leste.

Sem isso, não discutiremos com clareza e transparência o projeto futuro da cidade. E, assim, comodamente, as gerações futuras poderão continuar dizendo… é, mas São Paulo cresceu aleatoriamente, sem planejamento.

Valter Caldana

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Sobre o Plano Diretor

Entrevista à Rádio CBN sobre a primeira votação do novo Plano Diretor de São Paulo.
>> Ouça a entrevista
Valter Caldana

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Sobre o Plano Diretor de São Paulo: 1a votação.

O povo passar a noite nas galerias para ter certeza de que não haveria uma votação na madrugada… triste porém verdadeiro.
Parabéns aos vereadores que, por fim, tiveram o bom senso de aprovar a proposta sem emendas.
Que daqui até a segunda votação não haja a descaracterização do plano que, como qualquer plano diretor, é resultante, é o possível.
Ainda que ele tenha perdido algumas chances históricas e recuado em algumas propostas importantíssimas, o saldo é positivo.
O primeiro lamento é que continuamos com um plano grande demais, longo demais, que fala demais. E, assim sendo, permite interpretações demais.
É um plano mais escrito do que desenhado e, já se sabe (lá onde elas funcionam) que cidade não se escreve, cidade se desenha e se constrói…
Por ser grande demais, as diretrizes e os instrumentos que permitirão a transformação da cidade rodoviarista dispersa, cara, injusta e de baixa qualidade para a cidade do cidadão, polinucleada, descentralizada, equilibrada, compacta e multifuncional (como acertadamente prevê o plano) se dispersam e se fragilizam entre regrinhas e joguetes de palavras.
O Plano, vício de um país paradoxalmente autoritário e legiscólatra, ainda legisla demais e avança sobre temas que devem ser definidos em Leis e outros ordenamentos complementares, sobretudo projetos, exatamente para que o plano possa ser objetivo, contundente e compreensível nas suas premissas e na definição de diretrizes.
No entanto, apesar de tão abrangente, é tímido em excesso quando trata da questão metropolitana. São Paulo, como maior condômino desta região tem a obrigação de avançar na criaçào de mecanismos articuladores e otimizadores de recursos na formulação e na implantação de políticas públicas. Vide a questão das tarifas de transporte e a questão da água.
Por outro lado, é grave perdermos a chance histórica de diminuir drasticamente a corrupção e a bandalheira na aprovação de projetos, uma vez que faltou coragem para acabar com o injustificável conceito de área computável, porta escancarada para o malfeito.
É grave perdermos a chance de descentralizar efetivamente a gestão da cidade, dando poder de execução orçamentária para as Sub-Prefeituras, assim como é de se lamentar perdermos a possibilidade da criação de instrumentos efetivos, simples e eficientes de participação real do poder público no complexo jogo de construção de valor e preço da terra urbana, como um banco público de ativos reais, que possa comprar e vender terra e imóveis.
E, a se lamentar, alguns recuos também graves, como por exemplo a anunciada eliminação da fórmula de Adiron, certamente a maior responsável por esta cidade monótona, pouco ou nada criativa e desrespeitosa para com sua geomorfologia (topografia, córregos, áreas verdes), que ficou no discurso inicial do Secretário.
Assim como ficou no discurso inicial o compromisso de que o adensamento dos corredores de transporte de alta e média capacidade só ocorreria após a implantação real dos equipamentos e não antes, criando primeiro o colapso para depois ir atrás da solução, como é nosso hábito. E que este mesmo adensamento seria proporcional à capacidade de carga dos equipamentos instalados, variando no tempo.
É preciso registrar que alguns destes reclamos estariam parcialmente contemplados e diluídos, bem diluídos,  no texto, criando, para um otimista inveterado, a sensação de que haverá a possibilidade de sua implementação em algum momento nos próximos 16 anos… Mas, apesar de otimista e de ainda acreditar em planos, não chego a este ponto.
Mas há pontos positivos.
O primeiro deles, acredito, é o fato de que, se lido e aplicado com rigor na elaboração da legislação complementar (Lei de Zoneamento à frente, Planos de Bairro na sequência), o Plano permitirá à cidade de São Paulo realmente alterar a forma como vem sendo construída.
A inversão do protagonismo do automóvel para o cidadão é explícita e inadiável. Assim como o é o reequilíbrio da ocupação e da distribuição espacial do sistema habitação x serviços/emprego/renda, definidos como diretrizes basilares no novo plano.
Ainda que mantendo um forte viés “transporteiro”, que é aquela visão equivocada de que os fluxos determinam a cidade, o Plano se esforça em fazer também esta inversão, ou seja: fazer uma cidade onde os usos determinam os fluxos, nos libertando da condenação de vivermos dentro de um autódromo, ou de um sistema de auto-estradas, caminhando a esmo como se fôssemos uma multidão sem rumo.
Neste sentido, é importante dar atenção para a a explicitação de que a cidade tem que ser de uso misto, seja do ponto de vista funcional, seja do ponto de vista social e cultural, o que é outro grande avanço.
Deste modo, os incentivos à preservação ambiental e cultural – ZEPAM E ZEPEC – são muito bem vindos, inclusive por que reconhecem, pela primeira vez, que a manutenção e a preservação deste patrimônio por particulares deve ser fortemente cobrada, porém compensada coletivamente. Isto certamente aumentará a eficiência das futuras legislações e ações de preservação ambiental e cultural.
Deve ser louvada também a criação do corredor cultural Luz – Paulista, a o estímulo às fachadas ativas – construções que devem abrigar usos comerciais e de serviços nos térreos, diretrizes que devem devolver vida às ruas, que nos foi roubada no Plano de 1972.
Deve-se registrar, também, o avanço na redefinição das Zonas Especiais de Interesse Social, ZEIS, na implantação da cota de solidariedade (10% da área de grandes empreendimentos destinadas à construção de habitação de interesse social) e a utilização de recursos líquidos do Fundurb para a aquisição de terrenos (uma pálida alusão ao banco de terras e ativos a que me referi acima).
A recriação da zona rural no extremo sul da cidade é outro elemento importante do novo plano. Assim como o reconhecimento e a proposta de ação, que aliás já vem do final do governo Kassab, sobre as áreas de mananciais que se encontram definitivamente comprometidas e com milhões de pessoas morando em condições de total insegurança, seja física, seja patrimonial, seja jurídica. Ou seja, o plano pára de tapar o sol com a peneira nesta questão e faz propostas objetivas de ação.
Por fim, o coeficiente de planejamento, um mecanismo, ainda que incipiente, de incentivo a que as diretrizes do plano sejam cumpridas pelos agentes produtores de cidade.
Enfim, o saldo certamente é positivo. Mas vale ressaltar que esta revisão do chamado Sistema Municipal de Planejamento não se encerra na revisão do Plano Diretor. Ela se inicia.
E, também, é importante ter em mente que a materialização destas diretrizes, assim como o seu reconhecimento pela sociedade, se dá principalmente através dos instrumentos que começarão a ser discutidos e definidos a partir de agora, como a Lei de Zoneamento, que gera efeitos imediatos, os Planos Setoriais, os Planos Regionais e, sobretudo, os Planos de Bairro que por serem os últimos em geral são negligenciados.
Porém é através deles, que deveriam se chamar Projetos de Bairro, que a possibilidade de participação, a percepção de  melhoria da qualidade de vida e o aumento do sentimento de pertencimento à cidade por parte da sociedade se dará.
Muito trabalho pela frente.
Valter Caldana
Sobre o assunto
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Demora na aprovação acirra os ânimos e desmotiva setores

Artigo pulicado no Estadão (leia a notícia)

A complexidade da votação do Plano Diretor neste momento se deve a dois motivos principais. Primeiro, há uma dificuldade política natural de se fazer todas as negociações para alcançar um ponto de equilíbrio. A cidade é resultado e resultante de um sistema composto por forças complexas, muitas vezes antagônicas entre si. O Plano Diretor é um documento que deve ser exatamente o registro do sistema de forças e indicar claramente qual é a resultante desse sistema.

É complexo chegar à aprovação desse plano porque os diversos grupos sociais acabam defendendo interesses legítimos, porém mais voltados para as suas próprias necessidades, restando pouca flexibilidade para interagir com os demais agentes da cidade. É legítimo o movimento de moradia lutar por habitação popular, é legítimo que o comércio queira condições para se desenvolver, é legítimo que os jovens batalhem por espaços de lazer públicos de qualidade e é legítimo que o setor imobiliário defenda que seus negócios continuem saudáveis. O problema é que, mesmo defendendo interesses específicos legítimos, todos os grupos têm de abrir mão de algumas coisas por um interesse coletivo maior.

Quanto maior é a dificuldade desses agentes de compreensão da diferença e complementaridade entre os interesses específicos e os coletivos, mais difícil é a tarefa de finalizar e aprovar o Plano Diretor.

O segundo motivo está relacionado aos procedimentos e ritos internos da Câmara, que dificultam a aprovação ágil de qualquer projeto. A situação fica pior quando trata-se de uma questão polêmica.

Muitas vezes, o Legislativo, no cumprir de suas funções, acaba se distanciando do chamado clamor popular. Um dos aspectos mais importantes desse Plano Diretor é que ele está sendo compreendido e desejado pela população. Então, a agilidade em sua aprovação pelo Legislativo é também desejada pela sociedade. Afinal, é a partir dessa aprovação que poderemos prosseguir com outras discussões importantes, como a Lei de Zoneamento e os Planos de Bairro.

A demora na aprovação do plano acirra os ânimos desnecessariamente e desmotiva setores que se animaram a discuti-lo. Esses grupos começam a se desinteressar do processo e achar que nada vai mudar, o que não pode acontecer.

É muito importante que, neste momento, o Legislativo consiga agilidade para a aprovação desse plano. Após a aprovação nas comissões, a discussão em plenário deve acontecer de maneira objetiva, sem retomar pontos que já foram superados nas audiências públicas. O Plano Diretor merece, sim, um esforço concentrado e um envolvimento especial de todos os vereadores, para que a aprovação ocorra logo. Para a organização política da cidade, a sociedade toda quer e precisa ver esse envolvimento.

Valter Caldana

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