MEIO CENTRO

Há tempos reclamo que a baixa instrução que se tem em geometria é definitiva para agravar a já muito grave deficiência cognitiva que caracteriza nossa sociedade contemporânea. Não se consegue discernir os pontos focais. Não se circunscrevem as questões ou suas dimensões e decorrências.
Geometria, mesmo a plana, mais simplinha e popular, é pura filosofia. É uma das mais importantes ferramentas inventadas pela humanidade para entender o mundo , sobretudo, nele sua própria inserção.
Não saber os rudimentos da geometria faz com que não se consiga reconhecer, nem mesmo do ponto de vista sensível e intuitivo, conceitos elementares como ângulo, sentido, direção, reta, curva, agudos, obtusos, plano, inclinado, triângulo, diâmetro, raio, referência, ponto de vista e, sempre necessário, ponto de fuga…
A coisa está tão grave que hoje já não se consegue sequer uma compreensão do que seja lado e, pior, muito pior, meio, média, proporção e, aí danou-se, centro.
Por exemplo, está havendo uma aceitação que, acredito, vem deste problema cognitivo agravado pela dificuldade com os conceitos básicos de geometria plana de que a panaceia (panoptica?) da vez é uma tal terceira via, como se ela fosse um eixo de simetria e, mais doido ainda, de centro.
Ou seja, a apenas um ano e um mês das eleições, continua por aqui vigorando a incapacidade de compreensão de que a menor distância entre dois pontos pode ser uma reta, mas nem sempre, que simetria se estabelece a partir do ponto de vista, que por sua vez depende da posição e do lado em que está o observador e que o centro (seja ele um centrinho ou um centrão) pode até ficar no meio da própria roda, do seu próprio círculo. Mas, não fica nem no centro do universo, nem no meio do caminho.

Valter Caldana

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PRESENTE

A ideia é vender por um valorzinho simbólico apenas, dinheiro de troco, terrivelmente abaixo do que valem os ativos da empresa, incluindo seus lucros, marca, patrimônio, imóveis, capilaridade, expertise e monopólio por um período em troca de perspectiva de arrecadação futura.
Há tempos digo que a mais elogiável característica do presidente é sua sinceridade e explicitude, que ele conseguiu, como poucos conseguiram, imprimir ao seu governo. Vide esta entrevista, a mais recente de seu ministro chefe e tantas outras, de tantos de seus ministros e super funcionários.
Por outro lado, me assombra a parcela fortemente minoritária da sociedade, que ainda mantém um sopro de nacionalismo e desejo de ver um país autodeterminado, insistindo na ideia de que o problema é ele, o presidente.
É mais uma prova cabal da incapacidade de fazer foco ou, como creio eu, de sua concordância ou conivência (incluindo-se aí analistas e lideranças políticas, inclusive de oposição) com o projeto que se encontra em veloz, voraz e avassaladora implantação.
No mês em que um dia alertaram para a presença de forças ocultas no comando da nação e da importância da História mesmo que deixando a vida, o que temos, passados pouco mais de meio século, é que as forças não são mais ocultas e a história se desfez, levando consigo o futuro.
Somos uma sociedade condenada ao presente.

Valter Caldana

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/08/28/martha-seillier-correios-privatizacao-ppi-leilao.htm

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O MASP É TECH, O MASP É POP, O MASP É TUDO

ou o projeto de um país urbano
Independente de minha paixão pela obra – obra completa, arquitetura-cidadania-cultura – da Lina, tive a oportunidade e o privilégio de poder descer do ônibus em boa parte das tardes de minha adolescência, vindo da escola, e dar uma parada no MASP.
Naquele vão, naquela vista, foi que se transformou o moleque desenhador de carros, caminhões e aviões, que chegou um pretenso engenheiro aeronáutico e saiu um jovem arquiteto.
Ali se deu a descoberta e se consolidou minha paixão pela cidade.
Além desta, algumas lembranças pessoais pontuais me ligam fortemente ao MASP, como certamente outras tantas ligam milhares, milhões de outras pessoas.
Uma delas, muito forte, foi o dia da morte da Lina. Outra, muito terna, foram os passeios para ver a obra, eu recém chegado da Vila Tibério. Foi desde o início um instrumento de sedução.
Outra, muito reveladora, foi a reação de alguns luminares cronistas da arquitetura paulistana à exposição dos expositores de concreto e vidro que fiz na entrada, no eixo de penetração da Oca, como primeira exposição a ser vista pelo visitante interagente da nonaBia.
Diziam e escreviam eles e elas que a presença dos expositores sem nada ‘pendurado’ era uma prova de que a nonaBia “arquitetura para todos, construindo cidadania” estava vazia e não tinha conteúdo. Não foram capazes de compreender, entender que fosse, que os expositores eram a própria exposição. A grande homenagem à Lina, à sua obra, à AU e ao Design. E que a presença da Lina na abertura da exposição, com aquela que eu considero sua obra síntese, seu testamento, era a marcação de uma posição.
Há exatos 10 anos nós os resgatamos do ostracismo, graças à compreensão e ousadia de antigos funcionários e funcionárias do museu, que os mantiveram lá, inteiros, e à bravura de nossos brancaleones.
Os expositores estavam esquecidos no depósito do museu e pela primeira vez, em décadas, voltavam à luz, elemento que faz parte de sua própria concepção e existência e ao noticiário.
Principalmente graças à insensibilidade da crítica, se tornou ainda mais prazeroso ver a reação e relação dos visitantes (não profissionais) diante deles. Um ar curioso, iluminado, reticente, reflexivo. Tudo o que a arte desperta no ser humano. E a relação com a transparência, o brilho, o reflexo, o vidro…
Na sociedade do ‘não alimente os animais’, a pergunta síntese era “pode tocar”?
Me divertia ficar ali por perto quando havia excursão de jovens estudantes das escolas primárias e secundárias durante a semana, pois sempre havia aqueles que levantavam lentamente a mão para tocar o vidro mas hesitavam, procurando o olhar repressor das tias e tios, dos professores e professoras. Era muito bom, quando me detectavam com o olhar, e eu fazia um sorriso concordante, por vezes incentivador.
Pode tocar. É seu!
Palavra dela!

Valter Caldana

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TER TEMOS MAS ESTÁ EM FALTA

Há cinco anos escrevi o texto abaixo, me relembra o Al…
Hoje o que temos é que não apenas não pediram desculpas, como convenceram uma enorme parcela dos que trabalham muito a colocá-los no poder (não me refiro apenas ao presidente) para implantar o país que diziam ser, e querer. E, se vê pelos indicadores, estão conseguindo com uma velocidade surpreendente, avassaladora.
Há tempos comento que o movimento que fora para as ruas com a senha ‘não é por 0,20′ (hoje sabemos que queriam de fato muito mais e, de novo, não me refiro apenas ao presidente) ganhou corpo com a palavra de ordem ‘não vai ter copa’.
A história destes cinco anos todos sabemos, todos vivemos, todos votamos. Por ação ou omissão a maioria elegeu o país que teve Copa, teve Jogos, mas não valeu. Não adiantou.
Segundo o VAR, vale a regra do ‘ter temos, mas está em falta’. E o jogo segue. Só que sem o estádio Brasil, que explodiram e está sendo vendido picadinho para o ferro velho e o resto, o que sobrar, vai para a caçamba.

Valter Caldana

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RIQUEZA. ALMA, MEMÓRIA E CARÁTER

Ministério da Educação e Saúde à venda por falta de uso.
Estou na dúvida se torço por uma solução tupiniquim e que seja comprado pelo SESC-SP (mas não dá, é no RJ…), pelo Centro Pompidou ou pela Fundação Guggenheim. A Gulbenkian seria bacana também.
No entanto, vai mesmo é acabar sendo comprado por um banco, ou, com ‘sorte’, por uma multinacional da educação. Ou vai encalhar, pois vai ser considerado pelo mercado mais um mico tombado pelos radicais do patrimônio histórico, que só dá trabalho e não se viabiliza em nenhum modelo de negócio.
Agora, de verdade, eu torço, mesmo, é para o edifício ser desmontado e levado para algum lugar distante, belo, humano, onde possa ser remontado, valorizado, desfrutado e protegido do vandalismo ético, moral e físico a que está submetido.
Esta seria uma linda operação tecnológica de resgate do edifício e seu significado material e imaterial, ainda mais simbólica do que a sua própria colocação à venda como um entre 2.500 itens encontráveis numa bacia – ela própria também simbólica – colocada numa liquidação chamada Brasil.
Vale alertar, leitor, que este estranho desejo, o desterro do edifício, vindo de uma alma nacionalista, um quase Policarpo, bem Quaresma, como a minha se explica…
O simples fato de ter sido colocado à venda pelo Brasil indica que ele não pode mais ser considerado brasileiro. Como tenho dito, temos que assumir nossa indigência ética e cultural e a dura realidade de que não temos capacidade de ter e manter o que nossos antepassados nos deixaram, e o que a natureza nos provê.
Aliás, o resto do planeta já está jogando isso na nossa cara, questão amazônica à frente.
Mas, enfim, neste meu delírio matinal, desejo muito poder ver o edifício embarcando pedra a pedra, brise a brise, num vapor partindo do Píer Mauá.
É muito melhor e mais simbólico este sonho delirante do que suportar a dor da realidade de vê-lo transformado numa caricatura sórdida, antítese de tudo o que representou para o país e o povo brasileiro. Um povo que um dia foi capaz de concebê-lo, construí-lo e usufruí-lo, num determinado e breve período histórico de sonho e realização.
O crueza dos fatos é que ser um testemunho deste país e uma homenagem a educação e a saúde, abrigando-as num dos primeiros edifícios modernistas construídos no mundo, não poderia mesmo ser suportado pelo projeto do fazendão desnacionalizado e sem identidade que vige nestas paragens. De apenas tolerado ele se torna indesejado. Descartável. E subversivo.
Entretanto, ele estará sempre na memória, na alma e no caráter de alguns (poucos?) brasileiros e brasileiras, interessados em construir uma Nação e sua riqueza.
Assim sendo, símbolo maior de um país urbano nascente e sonhador, símbolo de um país que poderia ter sido, e que agora fenece, que você parta em paz e digno, Ministério da Educação e Saúde, Palácio Capanema.

Valter Caldana

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