A NOITE DOS TEMPOS

A sensação de não ter tempo para a reconstrução me sensibiliza profundamente e me esvanece a alma. A contar de hoje, serão no mínimo mais 12 a 15 anos de tristeza. Dois ciclos de sete anos.
Me choca a ideia de que a destruição é feita por nós mesmos, via voto. Me espanta que não haja um único projeto alternativo para construir nada, absolutamente nada que seja nacional, coletivo e difuso. Que pense no outro, que inclua alteridade e misericórdia. Humanidade.
Me assusta que se continue, convenientemente, a achar que o problema é o presidente.

Valter Caldana

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OS CONFINS JUSTIFICAM OS CENTROS

O boicote à revisão do PDE, o Parque Minhocão, o Parque Augusta, o Parque Oficina, o dilema da altura dos prédios no miolo dos bairros consolidados e equipados onde os prédios já são altos e a infraestrutura já está instalada, a qualidade do piso, o nivelamento e a limpeza de calçadas em bairros onde já existem calcadas, a velocidade dos carros e o mobiliário urbano, a arborização e o enterramento da fiação, a proteção da paisagem… são todos temas vitais (sobre os quais me debruço há anos) relativos à uma cidade bem bacaninha.
A outra cidade, logo ali, logo aqui (pois nada tão anacrônico quanto a definição centro-periferia) segue a vida, vida que segue, desequilibrada, desequipada, árida, empoeirada, cheia de armadilhas, sem lei de zoneamento, sem plano diretor, sem plano de bairro e cheia de graça, de energia, de cultura, de vida, de crianças e jovens, de potencialidades e de possibilidades.
Como sempre seguiu e sempre seguirá.
Só não usem esta para justificar aquela, plis…

Valter Caldana

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AMARAL NETO O REPORTER

Quando você descobre que inclusive a FAPESP, a maior, mais eficiente e mais rica agência de fomento científico do país, que financia a inteligência e a produção de conhecimento nacional, assumiu o projeto do Brasil fazendão, extrativista primário e locatário de terra nua (e arrasada), é hora de entender que o ciclo se completa.
A sua revista oficial trazer uma matéria neste tom, que desrespeita até mesmo a memória da vida e da morte de cientistas brasileiros numa reportagem digna de qualquer jornaleco é desalentador.
A explosão de Alcântara e o acordo de limitações de uso são tratados como se fossem episódios distantes, efemérides ocorridas num país longínquo, como se não tivessem a menor relação entre si e como se não houvesse nenhum ônus para vidas e para a ciência brasileira. Ao contrário, minimiza-os, coloca-os na ‘linha do tempo’.
Aliás, a leitura da matéria dá a impressão de que a explosão sequer seria mencionada, e o acordo de salvaguardas é tratado como “normal” e positivo, enaltecido o fato de que agora, como previsto, a base, que foi um laboratório, pode ser alugada. Mais ou menos como o salão de festas aqui do prédio.
Melhor pensar bem na próxima vez que o governador avançar sobre o cofrinho da fundação. Talvez ele tenha mais razão do que parecia na ocasião.
Mas, afinal, no Brasil atual, que entende que desenvolvimento tecnológico se compra, não havendo a necessidade de produzi-lo, ter um negócio de aluguel de terrenos e salões de festa e uma agência pública de fomento que o enaltece em sua revista é coerente.
Vou ver se tem umas reportagens do Amaral Neto no you tube.
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Em tempo, se deu a impressão de que meu comentário desabafo aí em cima é uma leitura política de uma notícia científica, lembro que a revista não é científica, é noticiário. E, como tal, ao trazer um “box” registrando “o outro lado” no finalzinho da matéria à la FSP, permite uma leitura desta natureza. Posto que a fapesp assumiu um lado.

Valter Caldana

https://revistapesquisa.fapesp.br/pronto-para-decolagem/

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PROCURA-SE VIVA OU MORTA

Logo no início da pandemia apareceu uma expressão bem, deixa eu ver… escolhendo palavras … bem tola. Um tal de novo normal, a definição intelectualmente bacaninha (que é sempre uma variante ilustrada do negacionismo chucro) para o que se passava.
Alguns velhos ou seminovos, onde me incluo, logo reagiram observando que nada seria mais antigo do que este novo normal, nem mesmo caubói que dá cem tiros de uma vez.
O que se veria, dizíamos, é que de forma proporcional ao tempo de duração da pandemia o normal imperaria. Embrutecimento, reafirmação e acirramento das desigualdades, a manutenção da eficientíssima política pública do cada um por si e ninguém por todos… e a aceleração e a consolidação de arranjos que já estavam em andamento.
Tudo isto acompanhado, claro, do mais que velho, normal e indelével oportunismo que caracteriza a ação corporativista, segregadora e violenta de nossa sociedade.
Os parágrafos acima podem parecer uma reclamação, um pouco de mimimi, um certo nihilismo de segunda, talvez seja, mas estava aqui a ler os jornais e pensando. Tem coisa mais óbvia, e normal, do que sabermos há mais de mês que a variante delta deve chegar aqui em um mês – ou seja mais de dois meses de prazo de preparação – e nada ser feito para minimizar seus efeitos? Nenhum preparo, …, nada!
Pior. Tem coisa mais esquisita do que montar um cronograma de trabalho, como passei boa parte do dia ontem fazendo, levando em consideração a sua chegada, tentando entender se chegará na primeira ou na segunda semana de outubro, se haverá alguma ação governamental, se dará tempo de fazer tal ou qual ação presencial… ?
É definitivamente muito estranho ter que analisar as possibilidades de trabalho remoto ou presencial com a equipe no campo e, claro, mais estranho ainda incluir a possibilidade das internações e mortes no meio do caminho.
Tudo isso porque não há uma política pública minimamente eficaz e coerente (nem precisaria ser eficiente).
Todavia, se esta houvesse, seria, aí sim, um novo normal!!

Valter Caldana

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. POBRE ENERGIA RICA

Mais perto do que se imagina, o saldo energético Desta experiência será positivo.
A partir daí fontes praticamente inesgotáveis e altamente potentes e limpas de energia estarão disponíveis. A atual cogeração, que já é uma revolução, será uma brincadeira de criança (de berço). Isto significa de cidades inteiras iluminadas e operantes a viagens rápidas e interplanetárias.
É, então, que vai se dar uma questão interessante e desafiadora, como sempre não técnica ou tecnológica, porém ética.
Não teremos resolvido questões elementares como impedir que uma pessoa sequer morra de fome, ou seja morta pelo que pensa, e seremos capazes de ter fontes inesgotáveis de energia.
Por outro lado, estas fontes de energia não virão mais da extração pura e simples (madeira, carvão, petróleo, água, vegetais…), o que há duzentos anos define a geopolítica planetária, mas virão de pesquisa e desenvolvimento, cujo resultado já é, hoje, o bem mais caro do planeta. Mais caro – e será cada vez mais – por ser produto e serviço simultaneamente, por ser de consumo e durável ao mesmo tempo.
Bem este que países como o nosso, que optou (livremente) por deixar de investir em inteligência, paga a peso de ouro, soja, minério de ferro …
Ou seja, da capo al fine, as questões elementares do primeiro parágrafo – fome e liberdade – que em boa medida são retroalimentadas pelas explorações e desigualdades, não vão diminuir, vão aumentar. Até o colapso.
Até que a pobreza e a indigência, sua face mais perversa, não sejam mais necessárias.

Valter Caldana

https://canaltech.com.br/ciencia/sol-artificial-na-alemanha-atinge-30-milhoes-de-graus-kelvin-194659/

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