Covid-19 e a desigualdade

Estou preparando um material para uma apresentação sobre os efeitos da pandemia nas cidades brasileiras e italianas e me ocorre o seguinte…

Daqui a alguns meses, assim que terminarmos de contar os cadáveres e de prantear os mortos, nos daremos conta que temos a obrigação de explicar como pudemos chegar nesta situação, que só não terá sido pior pois o governo de São Paulo e da capital agiram com razoável competência, apesar dos esforços contrários da própria sociedade.

Na ocasião ficará claro que a desigualdade, da qual falamos insistentemente (em coro com muitos outros laboratórios, pesquisadores, instituições e pessoas) será uma das maiores vilãs.

Mas não bastará apontar. Teremos que mostrar e demonstrar.

Não vai adiantar ficar no discurso quase piegas e bem óbvio que apontará que há discrepâncias gritantes na distribuição espacial e territorial dos equipamentos de saúde. Seria até desrespeitoso com a memória dos que se foram.

Tampouco será questão de gritar que a rede pública é menos preparada que a rede privada. Primeiro por que isso não é um fato absoluto. Segundo r que o problema da rede pública é menos de qualidade e mais de quantidade.

E, por fim, equívoco dos equívocos, se tentará colocar boa parte da responsabilidade na questão da densidade, em números absolutos. Discussão que tenderá a ser inócuo, improdutiva e, já chamando para a briga, conservadora e tendendo ao reacionarismo.

Assim sendo, entendo que contribuiremos efetivamente com o processo e faremos alguma homenagem aos que tombarem nesta tragédia se encontrarmos um número puro que demonstre cabalmente para a sociedade o papel da desigualdade na mortandade. E, o que é sempre importante nas argumentações com nossa sociedade fria, a influência desta mortandade causada pela desigualdade na composição dos prejuízos econômicos sistêmicos causado pela pandemia.

Estamos começando este estudo, que faremos com o apoio imprescindível do Lincoln Paiva (ele ainda não sabe, é um convite público) que adora torturar números como eu e dos número compilados pla prefeitura e pelo Jayme Serva.

Aceitamos outras contribuições!

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Pandemia de ensino

El País traz uma entrevista com Andreas Schleicher, principal responsável do relatório PISA da OCDE. Nela ele diz, em outras palavras, que o ensino não poderá ser o mesmo depois da pandemia.

Ótima entrevista.
Comungo com boa parte do que foi dito.

Depois de décadas de vida e experiências variadas creio que a educação em todos os níveis é o único caminho de construção da cidadania plena, fortalecimento e aprimoramento da Democracia, nivelador social e creio que a produção de conhecimento é o único instrumento de libertação.

Porém, o descolamento com nossa realidade, que obviamente não é problema do entrevistado nem de suas respostas é gritante e precisa ser levado em consideração na leitura.

Aqui no Brasil, em São Paulo, se está confundindo desde a primeira hora o prosaico uso de ferramentas digitais de comunicação e apoio ao ensino com EAD, como se isso fosse ensino à distância e, numa espécie de revolta da vacina às avessas temos parte da elite do ensino universitário reagindo negativamente ao uso da tecnologia em seu dia a dia de sala de aula…

Mas nem isso é o mais importante.

No país de Anísio, Darcy, Paulo, Rubem, e tanta gente boa nesta área, a questão é bem mais crua e nua: Cadê as escolas? Cadê o ensino fundamental em tempo integral? Cadê a carreira digna de professor primário?

O vírus, vixe, este é grave mesmo!!!
Fiquemos em casa!

A questão é séria sem dúvida.
E terá consequências danosas.

Há muitos anos eu me proponho a dar aulas para os calouros, para os formandos e para os doutorandos. Gosto de fazer isso para poder ter uma visão completa do processo de ensino aprendizagem da escola. Achava importante quando era dirigente e continuo achando agora pois me permite mais consistência na minha atuação.

Também estou acompanhando a situação de perto na Itália, onde também participo de algumas atividades e estamos justamente fazendo uma disciplina conjunta (que já contava com instrumentos de comunicação digital).

E, por isso mesmo, posso assinar embaixo boa parte do que foi dito na entrevista. Teremos que fazer me um ano o que não foi feito em pelo menos quinze anos neste assunto. E fazer assim, de chofre, é sempre um problema.

Para piorar, a reação de boa parte de nossos colegas das universidade públicas é de se lamentar pois é uma posição frágil do ponto de vista estratégico que abre espaço justamente para o que acreditam estar combatendo.

No entanto, confesso que o que me desespera neste momento e a posição da matéria e do jornal reforça este meu temor, é que as principais mazelas de nossos sistema de ensino, que se iniciam no ensino básico, na raiz, no chão da cidade e do campo, vão ser de novo ofuscados pela emergência do ensino já consolidado (e cheio de problemas, ok, mas consolidado).

Não se aproveitará um micra sequer da crise para torná-la oportunidade, como muitos autores de auto-ajuda gostam de falar.
Isto significa que se tratará, de novo, como sempre, do sintoma e a doença continuará descontrolada.

Educação básica é prioridade zero no Brasil e nos países pobres.
Todo o resto, todo o resto vem depois.

Valter Caldana

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‘Tá’ bom ou vai mais?

A turma da simplificação plena, a que quer trocar empregos de semi vivos por corpos de semi mortos tem alguma coisa a dizer sobre o dólar estável a 5,25?
Assumimos definitivamente esta distância com relação ao ponto de equilíbrio do bem estar possível? Está bom, ou entra mais?

Valter Caldana

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Metros e metros, léguas e léguas

ou como nem sempre é bom
medir o mundo

Existe uma métrica que é muito pouco divulgada. Mesmo na década de 1980, quando estávamos a milímetros da dolarização plena da economia que o Brasil sempre conseguiu, sabiamente, disfarçar criando dólares falsos oficiais – BTN, ORTN, OTN, UFIR, tabiltas e tabelas.

Talvez por ter evitado a dolarização explícita, a métrica a que me refiro não seja tão clara e disseminada e, por iso, assimilada pela sociedade, que fica à mercê…

Sendo o Us$ a moeda padrão, a moeda franca, ele é, obviamente, um padrão. Ele é um metro, por assim dizer.

E é um metro que diz que quando sua relação é 1:1, você está no ponto de equilíbrio da qualidade de vida possível pelo sistema que vige. Por óbvio, isto fica a cargo do país que tem o maior poderio bélico do planeta, um dos maiores territórios, a maior economia, a maior dívida pública, a mais desenvolvida pesquisa, a maior auto-estima e o maior ego. É natural.

Mas, voltando, temos então o 1:1. O Euro, eurocêntrico como uma velha senhora, se sente superior… a vida lá é pelo menos 10% melhor que nos EUA… e assim por diante.

Quando nosso Realzinho de todo dia está nos famosíssimos 1:2,70 tido por muitos como a relação mais equilibrada, isto significa que nossa qualidade de vida sistêmica é duas vezes e meia pior que o ponto de equilíbrio ‘acessível’ pelo sistema.

Quando esta relação dobra, isto significa que nossa qualidade de vida está 5,5 vezes pior do que a média possível no sistema.

A questão é…

Quanto o dólar a 5,25, e subindo, é mais prejudicial, provocará maiores quebradeiras e eliminará setores inteiros da economia do que uma quarentena forçada com salários e giro garantidos pelo tesouro e financiados por parte dos juros a pagar sendo contingenciada (eu não disse ‘calotizada’)?

Bem, é isso…
Bom dia.

Valter Caldana

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Cidades

Uma coisa esta quarentena forçada já demonstrou. A força das cidades em comparação com a força dos estados nacionais. Papo para outra hora…

Valter Caldana

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