Melhorando a D.R.

ou como para discutir a relação
é preciso conhecer a relação

Interessante notar que ainda não estamos maduros ao ponto de perceber que há uma diferença enorme, o quanto enorme é a diferença entre estrutura e conjuntura, entre de um lado o que seja proteger o trabalho, em especial das distorções e desproporcionalidades que se estabelecem em sua relação com o capital, uma questão estrutural e, de outro, quais os mecanismos e qual a extensão desta proteção, esta sim uma questão conjuntural.

O que vemos hoje é um ataque à estrutura, a proteção, em função da inadiável necessidade de ajustes conjunturais na organização, extensão e prática desta proteção.

É o que tem levado muita gente a aceitar, defender e apoiar cortes em elementos estruturais como sendo reformas de elementos conjunturais.

Mas, vale lembrar que quando se derrubam peças estruturais, a casa cai.

Em outras palavras, o que se está assistindo é uma clara e perigosa tentativa de jogar pela janela água suja, bebê e bacia.

A propósito, transcrevo a bonita definição dada pela corte francesa no julgamento, que traduzi livremente, do link enviado pelo amigo João Baptista Lago. (original aqui)

Vale notar que fica clara a relação de subordinação unilateral e que esta gera a necessidade da intervenção. Mas não determina qual a intervenção, que é uma outra discussão.

“A relação de subordinação é caracterizada pelo desempenho do trabalho sob a autoridade de um empregador que tem o poder de emitir ordens e diretrizes, controlar sua execução e penalizar a falta de seu subordinado. O trabalho dentro de um serviço organizado pode constituir um indício de subordinação quando o empregador determina unilateralmente as condições de desempenho.”

Valter Caldana

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Algemados

ou abrindo a torneirinha
em homenagem a Emília

O Estadão traz notícias de que mais um avião americano trouxe uma leva de cidadãos e cidadãs brasileiros deportados de lá. parece ser o sexto ou o sétimo carregamento.

Nós e outros países destinados a fornecer produtos primários e de simples extração para o consumo dos países ditos centrais temos uma contradição de difícil superação, que os EUA já perceberam e estão tomando as devidas providências para controlar seus efeitos(a Europa, como sempre, hesita).

Ao longo do século XX o país se urbanizou e a agro indústria se automatizou. Assim, a população deixou o campo e veio para a cidade. Hoje somos um país agrário e agrícola na sua base econômica com 90% da população vivendo na… cidade!!!

Com o fim da economia de base urbana – indústria, comércio e serviços – surge então um novo excedente de baixo valor agregado (já que o sistema educacional também foi pelo ralo, como a indústria, etc.): pessoas. É, gente. É isto que está fora da ordem, como se perguntava Caetano. Gente. Não a gente que nasceu para brilhar, mas esta gente que, na nova ordem mundial, nas palavras de FHC, é “inimpregável”.

Não que tenham ficado de fora da nova divisão social do trabalho. É pior. Para estes milhões e milhões aqui não tem e não terá trabalho. Nem aqui na cidade, nem no campo.

Então, o que faz um país com seus excedentes, sobretudo um país que assume um modelo primário extrativista para sua economia? Exporta. Vide a riqueza das nações,,, risos.

Portanto, não é estranho entender que vamos exportar cada vez mais pessoas, brasileiras e brasileiros, numa grande diáspora, mais ou menos como há 150, 100 anos fizeram Itália, Japão e tantos outros países para reencontrar, ou encontrar, seus caminhos de prosperidade.

No nosso caso, mais do que encontrar caminhos, tratar-se-á, como diria um certo presidente, de uma quase malthusiana operação demográfica.
Gente demais, economia de menos? Exporta-se o excedente de gente… ponto.

Mas, puxa vida, moço. Devolver algemado???!!!

Valter Caldana

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Mono trilho?

A Folha traz matéria sobre os mais de dez dias parados da linha do monotrilho do metrô de São Paulo. Uma tristeza. Só há o que se lamentar.

Lamento por nós, lamento pelos usuários diretos e lamento, muito, pelos colegas envolvidos nesta aventura, nesta barca furada, neste ‘trem’ parado.

Lamento, mas não por esta falha.
Isto, no universo tecnológico, acontece.

Afinal, quando você é um dos únicos (único?) no mundo a usar uma tecnologia que não foi desenvolvida para o uso que você quer dar a ela, você assume, voluntariamente, este tipo de risco. Faz parte do pacote você ser a cobaia.

Mesmo quando está claro que (exagerando um pouco?) você está colocando um ‘people mover’ de estacionamento de shopping e parque de diversões para fazer o papel de um modal de média alta capacidade…

Mesmo quando você faz no alto o que poderia ser feito no chão por um preço muito menor…

Afinal, ser cobaia não é mal. Alguém tem que ser, não é mesmo?
Além do quê, há sempre o risco de dar certo.

Lamento, mesmo, é por estarmos, e estarem, no meio desta tempestade que foi armada por motivações políticas e não técnicas.
E não, não me refiro a motivações políticas públicas de mobilidade.

Tomara que descubram e superem logo o defeito.

Valter Caldana

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Trecho da matéria da Folha.
“É provavelmente parte dessa peça que acabou caindo da via e parando na avenida próxima do local onde ocorreu o estouro, no trecho novo da Linha 15-Prata. O fato de o Metrô cobrar também o consórcio CEML, que é formado pelas construtoras OAS e Queiróz Galvão, além da Bombardier, joga suspeitas sobre as vigas-trilho, onde os trens circulam apoiados por dois conjuntos de pneus de carga.”
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Liberando o quê?

Como pode uma política liberal ser liberal se, ao colocar o dólar a um valor inatingível, ela nos condena ao isolamento?
Liberdade econômica não é ter o direito de se vender barato…
É bem mais que isso!

Valter Caldana

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O que falta?

A Justiça e o Tribunal de Contas do Estado suspenderam por tempo indeterminado a licitação de concessão à iniciativa privada de uma antiga edificação e seu terreno pertencente à Usina da traição, no Rio Pinheiros, onde se pretende instalar um restaurante e outros equipamentos comerciais.

É admirável que num governo como este não haja uma única privatização que vá para a frente. Parece que mesmo depois de um ano de prefeitura, mais um de governo do estado, ainda não entenderam que o problema não é privatizar.

O problema é privatizar apenas por motivos ideológicos. Como é problema estatizar pelos mesmos motivos.

Mas, o que não conseguem entender, mesmo, é que o interesse público não é o mesmo que o interesse privado e que, portanto, a coisa pública não é igual à coisa privada e a gestão pública não é igual à gestão privada nem em objetivos, nem em valores, critérios ou métodos.

Tem um pessoal ali na Avenida 9 de julho que parece entender bem deste assunto. Tem até dois cursos que dizem ser muito bons…

E olha que o caso aqui é só um restaurante…

Em tempo: não tenho nada contra esta concessão. Até sugiro que seja feito um belo edital, um concurso internacional de projetos, uma licitação pública também internacional para que vença um concessionário que seja do ramo e possa investir na implantação do projeto. Talvez demore um ano a mais do que pretendem… mas, parado na justiça, nasce torto. Bem toro. E ainda corre o risco de fazer com que percamos mais um GP de F1…

Aliás, em tempo 2: sabe uma área que está prontinha para ser privatizada, aliás, sorry, ‘concessionada’ nas marginais? Justamente a área esquina entre as duas, Tietê e Pinheiros, sob o complexo ‘Cebolão’. Deve pertencer majoritariamente à EMAE, CESP e FEPASA

Aquilo daria um parque público com empreendimentos comerciais, habitacionais e educacionais de primeira linha, com grande benefício para toda a região metropolitana. Além de ser vital para o controle de enchentes e inundações na zona oeste…

Seria excelente e muito mais sensato e rentável do que vender os terrenos do Anhembi e de Interlagos e perder os rendimentos que a cidade tem, altíssimos e a custo zero, com as feiras e com o F1…

Aliás, indo mais longe, em tempo 3: Por que não recuperam o projeto do Parque Ecológico ao longo do Tietê e Pinheiros, atualizam, definem pontos estratégicos de intervenção, fazem concursos de projetos para estes pontos e abrem concorrências internacionais para sua implantação e exploração?

Com os ganhos auferidos na operação podem fazer toda a urbanização dos 45 km ao longo dos rios, a eliminação da auto-estrada urbana e a implantação dos sistemas de retenção e retardamento das águas pluviais e de transferência dos esgotos.

Por que não fazem?
Por que é mais fácil, aparentemente, colocar na vitrine uma enorme placa escrito ‘Liquidação. Família vende tudo.’

E dizer que quem reclama é do contra.

Valter Caldana

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