Rombos e projetos.

Anunciado o tamanho da catástrofe econômica e da recessão que se prolonga, vejo amigos aqui e analistas acolá colocando a culpa na Dilma, no Lula, no Temer, na Copa, na Olimpíada, no imperialismo ianque, no carnaval, na vagabundagem de nosso povo e na malemolência de nossas elites bronzeadas que sonham em ser compradas (agora por chineses)…
Tudo isso me diverte, a ponto de eu não querer reproduzir aqui o que penso disso, até por que seria inócuo.
Mas, me assusta, sinceramente, tantos acreditarem que a crise tem um só motivo ou um só culpado, seja ele qual for. E me assusta ainda mais o fato de que ninguém hoje no Brasil apresenta um projeto de curto, médio ou longo prazo para sairmos da crise política e econômica em que nos metemos…

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Tagged , , , | Leave a comment

Entre o túmulo e a casa da mãe joana

Valter, já tentou modelar quantos terrenos?
Chegou a quais conclusões?
Estou curioso.
Abraço grande.
…..
Um querido amigo, dos mais importantes arquitetos de São Paulo, me fez esta pergunta fundamental para o debate da pretendida alteração do Plano Diretor pela gestão do prefeito Dória. Pergunta simples e profunda exige uma resposta mais ampla e fundamentada. Aí vai…

______________________________
Salve!! Pouca gente entende deste assunto mais do que você, por isso envio aqui algumas mal traçadas linhas 

Modelamos vários e chegamos a números impraticáveis sem a utilização dos instrumentos de redução da outorga (ok, o que faz parte da política de incentivo ao uso dos instrumentos) e a números ainda muito muito difíceis de colocar em prática mesmo após o uso dos instrumentos mais óbvios.

Na verdade, o que estamos percebendo é que, como se esperava, haverá a necessidade de incorporar novas técnicas, novas tecnologias, novos sistemas construtivos e, sobretudo, novos programas nos produtos a serem lançados. E que estes sejam valorizados por todos, empreendedores e poder público. Aliás, esta é a função da outorga.

Haverá a necessidade de se encontrar e se criar novos nichos de mercado, novos modelos de negócio. Como você bem sabe, chegou a hora de abolir a máxima “lanço hoje o que vendeu ontem”…

Percebemos, portanto, que há aí uma oportunidade única para nós (arquitetos) nos reposicionarmos na cadeia produtiva e valorizarmos, finalmente, o projeto. Nossa contribuição (arquitetos) para o futuro da cidade é fundamental neste momento.

O PDE (muito mais que o zoneamento, que já é mais do mesmo…) ao mudar a matriz de construção do tecido urbano, cria esta oportunidade de reinvenção do programa e exige novos e melhores projetos. Insisto, veja a Cardeal, veja a Consolação…

Veja a esquina da Caio Prado com a Augusta… temos ali, só na diagonal de ouro, um vgv próximo de dois bilhões de reais (ou mais) somando os dois empreendimentos… com esta grana, aquela poderia ser a mais bela esquina da cidade, um paradigma de arquitetura e urbanismo paulistano do século XXI…

Mas, voltando à alteração do Plano: O PDE não pode ser um túmulo, onde entramos e não saímos mais, mas também não pode ser a casa da mãe joana…

Mesmo considerada uma certa dificuldade no aproveitamento da oportunidade de fazer P&D e superar limitações do século passado, dificuldade esta agravada pela crise econômica, o que resta é uma tabela de cobrança da outorga muito alta, absurdamente alta… Sim! Ok!

Ocorre que este é um problema pontual que pode e deve ser resolvido com legislação complementar, de prazo limitado e com compensação na outra ponta. E não com a abertura da porteira para a alteração e o retrocesso em outros tantos instrumentos (ainda tímidos se comparados a outras cidades de nosso porte espalhadas pleo mundo) da maior importância para a alteração do atual modelo de desenvolvimento urbano que está, insisto, em colapso. A própria outorga, a cota de solidariedade, a cota ambiental, os modelos de densificação, o DOT, vagas de garagem, a proteção aos miolos de bairro…

Não há a necessidade de se alterar o plano diretor para corrigir a tabela da outorga. Pode-se criar um tablita de descontos conjunturais como política de criação de emprego, pode-se criar novos instrumentos de abatimento.

Que tal dar desconto para quem não colocar grade e compartilhar o recuo frontal? Que tal dar descontos para quem fizer convênios e criar editais com a FAPESP para financiar pesquisa e desenvolvimento na cadeia produtiva? Ou para projetos de renaturalização de córregos ou para quem enterrar a fiação na quadra…

Que tal dar descontos para quem fizer projetos de reurbanização do entorno ou descontos ainda maiores para empreendimentos que sejam feitos simultaneamente em uma quadra ou pequeno conjunto de quadras e que se comprometam, juntos, a fazer a reurbanização do entorno, com processos participativos, ouvindo os vizinhos…

Que tal dar desconto para quem apresentar soluções projetuais que privilegiem novos modelos de negócio, aumento da produtividade, inovações tecnológicas, a ampliação do mercado, a qualificação do espaço público e a elevação da qualidade de vida na cidade?

Por fim, lembro que falta uma escala fundamental no marco regulatório, que são os planos de bairro, ainda sequer iniciados. Eu mesmo tenho proposto na CMPU que sejam dois instrumentos, em duas escalas: os panos de bairro e os projetos locais (acrescido do que chamo de PIU Cidadão)…

Ou seja, são instrumentos e Leis complementares que precisam ser inicados imediatamente pois avançam, não retrocedem nem alteram o PDE e o (fraquíssimo) zoneamento, e possibilitam a correção de distorções do plano e do próprio zoneamento na escala do empreendimento, na escala do cidadão, onde se pode ver o que se está falando, desenhando e construindo.

Caro, neste momento, acredito eu, nós arquiteto e urbanistas estamos em cheque. Nunca a sociedade esteve tão propensa a nos escutar. Temos realmente o que falar?

Um abraço,

Valter

Posted in cotidiano | Tagged , , , , , , | Leave a comment

Gerir x Governar

Eu escrevi aqui há umas poucas semanas que eu imaginava que a equipe do prefeito estaria, certamente, atenta para a legalidade de suas iniciativas.

As relações público x privado e as relações do agente público com os agentes privados nem sempre (às vezes felizmente, às vezes infelizmente) seguem a lógica ou o bom senso. Elas devem seguir a Lei.

Uma das leis que ela deve seguir é esta coisa horrorosa chamada Lei de Licitações, que nasceu cheia de boas intenções e, paradoxalmente, se mostrou desde o início uma peneira e um covite para o mal feito e para a corrupção. Além dela existe uma penca de outras.

Digo isto por que, ainda que seja do PSDB, algumas das saudáveis iniciativas do prefeito são e devem ser entendidas como exceções e não podem se perpetuar. Por exemplo as doações. Quando ímpares ou únicas, certamente devem ter respaldo legal. Mas caso se tornem regra, certamente estarão ferindo dispositivos legais de equidade, oportunidades iguais para agentes privados, etc e tal….

Viajar para oferecer produtos ao comprador com a viagem paga pelo comprador, por exemplo, soa estranho, ainda que seja ótimo e louvável que a prefeitura tenha economizado toda esta grana. Melhor ainda viajar com ma comitiva mínima, este sim um exemplo a ser remarcado e exigido de outros governantes em todas as esferas de governo.

Enfim, como eu disse outro dia e repito hoje. Espero que a assessoria jurídica do prefeito esteja atenta a isso tudo pois, afinal, governar não é gerir, é um pouco mais complicado.

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Tagged , , , | Leave a comment

Sempre tem outra saída. Sempre.

Cada vez que ouço algum amigo constrangido, por honesto que é, dizer “mas não tinha outro jeito Valtão… Não tinha outra saída” me vem à cabeça um ensinamento paterno: tenha poucos princípios, pois assim você cuidará dos que tem com mais rigor e eficiência.

Entre o governo anterior e este há um “detalhe”, e este “detalhe” é que é a questão de princípio. Outra questão, que não é de princípio mas é de lamento é que nossa sociedade não consegue distinguir um princípio de uma preferência pessoal e confunde a defesa do princípio com a defesa de uma preferência.

A ponto de não conseguir manter uma conversa sobre este governo, apoiado na avenida por quem perdeu nas urnas, sem falar do pt, da dilma, do governo anterior….
dilma caiu, o pt acabou (está mendigando cargos na mesa da câmara e tentando encontrar oxigênio para se reestruturar em novas bases, imagino) e o Brasil construído pós milicos e pós 88 está sendo desmontado e enterrado sem qualquer complacência por um governo que recebeu este apoio e teve esta origem. Ou não?
E retornamos ao ponto… é a hora em que ouço: mas valtão, não tinha outro jeito, ela era ruim demais… E eu respondo: País sério aguenta governo ruim, organiza a oposição, trabalha, debate e vai para a eleição.

Quando defendo a convocação de uma Constituinte o faço exatamente no sentido de que o que se deveria era reconhecer que o pacto selado em 1988 está rompido, as instituições fragilizadas por seus ocupantes e o projeto de nação, de país e de Estado completamente comprometido. Não pela roubalheira do PT, do PSDB e, sobretudo, de seus aliados, mas talvez por que simplesmente tenha cumprido seu papel histórico de nos trazer até aquele ponto. O que se viu depois é que é a tragédia, a começar pelo desrespeito do resultado das urnas.

Quanto a governos de “esquerda” vale lembrar que todos os governo desde FHC 1 a Dilma 2 foram eleitos como sendo governos de “esquerda”. Sugiro que se pegue os índices da primeira posse de FHC até a posse de Dilma 2 para ver o que os governos de “esquerda” (que obviamente nunca foram) fizeram em 20 anos.
Chegamos mesmo a ter uma eleição entre dois candidatos de “esquerda” Lula x Serra onde, se alguns aqui tiverem memória, vão se lembrar que as propostas de Serra estavam à esquerda das propostas de Lula pós carta aos brasileiros, paz e amor, pois eram mais “desenvolvimentistas” e mais “nacionalistas”. Lembrar que Serra vinha da quebra de patentes da indústria farmacêutica e da implantação dos genéricos…

E, por fim, não vejo onde esta defesa seja uma defesa do governo anterior por princípio. Um governo que, sim, enfrentou os juros e a questão do incentivo à produção mas insistiu, por exemplo, no RDC para obras de infra-estrutura…

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Leave a comment

Res Privada

É triste demais ver como não há um único assunto realmente estratégico que seja tratado dando prioridade para o interesse público, para o interesse nacional, para a construção de um futuro consistente para o país nação.
Houve tempos em que eu achava que isto era por que entreguistas estavam no poder…
Depois entendi que eram entreguistas incompetentes (pois poderiam, ao menos, “cobrar” e ganhar mais).
Hoje, diante da nova(?) visão hegemônica sob a qual estamos vivendo, que perdeu a eleição mas levou o poder, entendo finalmente que o descaso com o interesse coletivo não é uma circunstância, é uma característica. Paradoxalmente, Isto dá uma sensação de paz e alívio.
Só não entendi ainda é como nós, simples cidadãos (já que tantos de nós apoiamos tudo isto que está aí e este tipo de postura ideologico-politico-administrativa) podemos ganhar alguma coisa além de uma cota diária de feno e alfafa.

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Tagged , , , | Leave a comment