ZER x ZCor: da sopa de letrinhas à cidade real

É quando digo que a prefeitura não se ajuda a ser ajudada…

Ou, de como propostas avançadas se perdem em meio a um modelo conservador de Lei, criando discussões bizantinas ou sofismáticas.

Esta matéria da Folha é um bom exemplo. [leia aqui]

Fosse o Projeto de Lei que altera o parcelamento, uso e ocupação do solo em São Paulo mais ágil e mais moderno, baseado em parâmetros e padrões de incomodidade objetivos e não em obsoletas listas de atividades (vide quadro no final da reportagem), este impasse seria muito mais simples de se resolver.

Num mundo onde com uma impressora 3D de R$ 4.000,00 e uma bisnaga de plástico de R$ 650,00 eu posso montar uma fábrica de revólveres (ou tênis, ou capinha de celular, ou seja lá o que for) na minha sala sem que meu vizinho saiba, não interessa o que eu vou fazer. Interessa o quanto vou incomodar o meu vizinho e a cidade como um todo.

No entanto, o que se fez no projeto de lei?

Neste caso cria-se mais duas zonas (De ZCor passamos a ter ZCor 1, 2 e 3) e três listas de “pode”, lembrando que toda lista de “pode” nada mais é do que uma lista de “não pode” disfarçada ou, pior ainda, uma lista de “não pode, mas pode, se eu deixar”, gerando ainda mais inseguranças na sociedade.

Não bastasse isso, a perpetuação do modelo antigo de Lei reitera a percepção (equivocada) pela sociedade de que o zoneamento é uma sucessão de fragmentos que vai manter ou alterar o “status quo” de pequenas parcelas do território e do tecido urbano, e não um instrumento de execução, de implantação das diretrizes gerais do Plano Diretor, e que o sistema de zonas (que deveriam em boa parte ser tratadas como áreas de interesse específico, mais dinâmicas) é interdependente entre si.

Uma ZER não funciona bem sozinha… assim como nenhuma outra zona funciona sem que esteja solidariamente relacionada à cidade como um todo. Nosso colapso urbanístico se deve, entre outras razões, à esta estrutura de Lei de Zoneamento que coloca o lote como unidade básica de planejamento.

No caso (corredor comercial) ZCor x ZER (exclusivamente residencial) vale lembrar que as ZER (antigas Z1) começaram a acabar no final da década de 80 quando o modelo rodoviarista disperso que só prioriza o trânsito e não a mobilidade invadiu todas as suas ruas com automóveis – e alguns ônibus – para aliviar o tráfego das avenidas coletoras lindeiras. Cito rapidamente o exemplo da Gabriel… Se o trânsito da Rebouças não tivesse sido desviado para lá, ela seria um ponto comercial tão valioso?

Se não mudar este modelo, com corredor ou sem corredor, tanto faz… as ZERs estarão condenadas. E a cidade também.

Valter Caldana

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Mais uma miragem.

Estadão publica mais um projeto tentando manter o Minhocão. [veja aqui]

A síntese do projeto: “Queremos movimento no local, como se fosse uma praia urbana. Brinco que enquanto o Rio tem o posto 9 em Ipanema, nós poderemos ter o pilar 1, 2 ou 3 no minhocão.”

Depois desta, vale lembrar, mais uma vez, que existem centenas de projetos, inclusive de qualidade, para a manutenção do minhocão:

O melhor de todos, em minha opinião, é o do Pitanga Do Amparo da década de 80. [veja aqui]

Depois deste, tivemos vários, alguns destes feitos por alunos e professores do Mackenzie, inclusive eu mesmo. Este projeto preveem, em geral:

> a sua demolição parcial com construção de equipamentos públicos em trechos a serem mantidos,

> o seu estreitamento, com a instalação de um VLT ou BRT na parta aérea (reduzir a largura dos atuais 17m para 6,5m ou 8m),

> retirar a faixa de asfalto entre vigas e transformá-lo em um grande pergolado, aí sim com um jardim no canteiro central (seria um pergolado chique como o do Copa?),

> pedestrianizar um lado da avenida, colocar o trânsito do outro lado. No lado pedestrianizado, sob o monstrengo, construção de um shopping linear…

> Tem até um que propunha fazer outro minhocão, acima deste, com vidros nas laterais (uma espécie de túnel de vidro suspenso…)

Ou seja, ideias alternativas, algumas boas outras nem tanto, algumas péssimas, outras ainda piores, além das que já foram ali construídas ou instaladas no últimos 40 anos não faltam.

O que falta é coragem para resolver um problema chamado minhocão.

Entregamos um documento para a Prefeitura e a Câmara de Vereadores há mais de mês com uma agenda de trabalho para discutir o assunto em outro patamar e chegar na campanha eleitoral com diretrizes projetuais concretas… [veja aqui].

Propusemos a contratação do IPT e outras empresas de orçamentação e análises técnicas independentes, além da realização de um Concurso Público Internacional para desenvolver projetos definidos a partir de consultas públicas.

Chega de evasivas e falsas promessas. É hora de discutir custos, condicionantes técnicas, etc e tal. Tornar público que um parque ali não sai por menos de R$ 150 milhões* , dizer quanto custa fazer a manutenção preventiva da estrutura que já está dez anos atrasada, verificar quanto custa a demolição e qual a possibilidade de reciclagem do resíduo sólido gerado…

Resposta: O prefeito vai atrás de mais um projeto baseado em perspectivas de venda, cheias de boas intenções, ilusões e desinformações.

É cansativo: Por que prefeitura e vereadores não deixam claro o que pretendem, a quem pretendem beneficiar e a quem estão dispostos a desagradar? São Paulo não precisa de ilustrações, temos muitas.

Chega de paliativos. São Paulo não é uma cidade para aspirinas. Abaixo o minhocão, a cidade para o cidadão.

Valter Caldana

* R$ 150.000.000,00 = 59.500m² (área de asfalto do minhocão, menos de um quarteirão) x R$ 2.500,00 (preço médio de obras públicas). Considera-se a constução, ali, de um parque de verdade, com segurança, acessos, iluminação, vegetação, pisos, sanitários, estares, mobiliário…

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Zoneamento – fiscalização, repressão ou orientação?

Assistindo à sessão pública de debate sobre a Lei de Zoneamento na Câmara Municipal, em plena segunda feira à noite. Sejamos justos, o debate está muito bom, as ideias são boas e todos estão ali realmente movidos pelo que têm de melhor. Avanços se delineiam.

Mas é incrível que a conclusão de vários dos presentes e do próprio relator da matéria seja a de que

“se não houver um sistema de fiscalização maciço, esta Lei não passará de papel bem preparado, não acontecerá”

Me pergunto: quando deixaremos de ter Leis, Diretrizes e Posturas Urbanas que encaram o cidadão como um bandido, um criminoso até prova em contrário e seremos capazes de fazer uma Lei simples, orientadora, instrutora, indutora de desenvolvimento e de qualidade de vida coletiva?

É sintomático pensar na prioridade dada à fiscalização neste debate…
A repressão no Brasil continua sendo, aos olhos, corações e mentes do administrador e do legislador, o melhor – talvez o único – instrumento de governo, de gestão e de aplicação de políticas públicas.

Quando teremos maturidade para reconhecer que o melhor “fiscal” que uma cidade pode ter é o cidadão bem educado desde a mais tenra infância, que saiba o que é coletivo, público e bem comum, amparado em uma Lei simples, orientadora, fácil de entender e de aplicar?

Não obstante, não dá para achar que enquanto não somos este cidadão a solução esteja na caneta e no talonário (de multas).

Minha sugestão é simples: toda atividade comercial e de serviços deverá ter sua licença de funcionamento / alvará emitido a partir de parâmetros de incomodidade que serão declarados pelo interessado e que deverão ficar à vista de todos (como antigamente, naquela pasta plástica das organizações contábeis tabajara, que tinha todos os documentos fiscais do estabelecimento) e que poderão, portanto, ser verificados cotidianamente.

Aliás, não vejo por que as aprovações não possam ser simplificadas e estarem baseadas em sistemas declaratórios, acompanhadas, aí sim, de punições pesadíssimas e exemplares para quem der falsas declarações, a começar dos proprietários e dos profissionais de nível superior envolvidos nos projetos e nas obras.

Valter Caldana

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Zoneamento II

Uma entrevista na Jovem Pan sobre o Projeto de Lei do Zoneamento a
Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo – 28´ – 25/06/2015

“A polêmica entre Corredores e Zonas Exclusivamente Residenciais é saudável, mas não pode ser a única a ser enfrentada na revisão do zonemanento. Há muitos outros temas decisivos para nossa qualidade de vida em jogo.”

<ouça aqui>

Valter Caldana

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Zoneamento I

PL do Zoneamento: entre o possível e o desejável

artigo plublicado no Estadão Noite em 17/05/2014

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