Estado e Planejamento

“A falência do modelo econômico e político implantado no país possibilita encontrar explicações para o quadro de crise urbana.
Esta crise não será, então, apenas decorrência de uma crise do planejamento ou do urbanismo enquanto práticas projetuais. Entendida como sendo a crise do próprio Estado, torna-se necessário entender qual o papel, para este Estado, desempenhado pelo planejamento.
Por serem considerados elementos privilegiados no sistema de comunicação e troca existente entre o Estado e a sociedade, planos são elaborados, porém sem concretização.
Com isto, acumula-se a demanda por equipamentos, infra-estrutura e políticas setoriais, crescente desde a aceleração da urbanização por que passou a sociedade brasileira.
A ação do Estado, ainda dominado politicamente por uma aristocracia rural, num modelo político marcado pelo clientelismo e o coronelismo, se defronta com uma nova realidade.”

in Planejamento urbano: uma reflexão sobre seus processos de elaboração.
Dissertação de mestrado | FAUUSP | Orientador Joaquim Guedes

Escrevi isso em 1994… eu hein! Tô velho!!

Valter Caldana

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Futuro

Estive na Bienal do Livro.
Foi lindo ver o Anhembi repleto, lotado, tomado de crianças e jovens ali para ver… livros!
Fiz um estande na feira do livro, precursora da bienal, para a editora scipione em 84 (SP) e para a câmara brasileira do livro em 85 (RJ) e, comparada com hoje, a feira era vazia… só tinha “velho” e “professor chato”.. risos.
Hoje a festa é linda, popular, e para todas as idades.
E se 10% de toda aquela “molecada” se mantiver próxima dos livros e do conhecimento, já valeu, e muito!

Valter Caldana

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Este país vai muito mal. Não me diga, sério?

Estive pensando…
Estou realmente cansado do catastrofismo e do ufanismo como tática e estratégia eleitoral. (Acho que eu e a torcida do flamengo…)
Qualquer um sabe que o Brasil não está tão bom quanto nos quer fazer crer a propaganda da situação (até por que o mundo não está nada bem…) e está longe, muito longe de estar tão mal quanto insiste a oposição há mais de dois anos (o tempo em que d…iariamente se diz que a inflação vai explodir, que a copa será um fracasso, etc. e tal).
Mas a questão é a seguinte: Quem tem 40 e tantos, 50 e uns, têm a obrigação de explicar aos mais jovens o que é um país que vai mal. Nós conhecemos isso, nós vivemos isso.

Outro dia, conversando com alguns amigos de seus 20 e poucos, 20 e muitos, todos filhos de nossa hoje tão falada classe média (ou seja, nós), eu dizia…
“Você se imagina indo num sábado a um show de umas bandinhas de garagem de conhecidos seus no pátio do seu colégio e isso ser considerado um grande ato político e uma afronta à estabilidade política e econômica de seu país?”
“Você se imagina não podendo ter aulas com um professor por que ele está preso?”
“Você se imagina vivendo com uma inflação de 40, 50% ao mês (nem vou contar que chegou a 85, vão achar que esclerosei, pensei comigo) e tendo que ligar todo dia no banco para aplicar e desaplicar dinheiro? Dinheiro de troco, bem entendido, não uma grande soma de investimento.”
“Você se imagina trabalhando cotidianamente com três moedas, a oficial, o dólar (dividido em mais três: paralelo, oficial e turismo) e um referencial móvel qualquer que poderia mudar de nome – otn, btn, ortn, urv, etc…”
“Você se imagina morando num país onde a tablita não é a mulher do tablito da Kibon?”
“Você se imagina indo fazer várias viagens com o carro da sua mãe e o seu pai no outro carro, numa sexta-feira à noite, para pegar uma fila enorme apenas para encher o tanque de gasolina e, os mais espertos, descarregar o mesmo em casa num tambor de plástico e voltar para a fila?”
“Você se imagina indo ao supermercado fazendo uma compra que poderia durar mais de três horas, gastando praticamente todo o seu salário, para estocar comida em casa?”
“Você se imagina projetando uma casa onde o maior cômodo era uma coisa chamada despensa, maior que os quartos, onde as famílias guardavam seu mais precioso bem, a comida do mês?”
“Você se imagina formado e sem NENHUMA perspectiva de emprego, de trabalho (não disse trabalho interessante), estudo, bolsa para o exterior, ou coisa parecida?”
“Você se imagina acompanhando a trajetória de pessoas maduras e extremamente competentes procurando emprego por mais de um ano?”
“Você se imagina procurando emprego por mais de uma ano, um ano e meio, quem sabe dois?”
“Você se imagina indo embora do país por não ter, definitivamente, o que fazer aqui?”
Pois é… Imagine (ou relembre)
Isto é um país que vai mal.

Valter Caldana

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Getúlio

o suicídio de getúlio

manchete da última hora

Hoje é o aniversário de 60 anos de um tiro que escancarou, definitivamente, as portas do século XX para o Brasil.
Salve Getúlio, com todas as suas, nossas, contradições.
…..
Pena que amanhã, 7 anos depois, um títere escolheu a porta dos fundos para seguir a caminhada

Valter Caldana

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abaixo o minhocão

Recentemente, numa entrevista na rádio para o Observatório do Terceiro Setor sobre o Plano Diretor me perguntaram sobre a diretriz para o elevado Costa e Silva. Na ocasião eu disse que “é bom, mas é pouco”.
Uma semana depois, a posição oficial recuando até mesmo daquele pouco veio a público.
Uma pena…
Insisto, a demolição imediata do minhocão é necessária e viável. Já escrevi sobre isso em outras ocasiões. [minhocão: derrubar é preciso]
O surpreendente, no entanto, não é o recuo. O surpreendente é que o recuo vem justificado por uma argumentação rodoviarista.
E, mais uma vez, o argumento da piora do trânsito é parcial e inválido.
Inicialmente é preciso entender que a função atual do minhocão na cidade é muito diferente do seu uso na década de 1970, sobretudo diante das várias possibilidades de rotas alternativas hoje existentes, que não existiam quando o monstrengo foi construído. A ligação leste-oeste hoje se dá de muitas outras maneiras, inclusive de metrô, sistema avenida do emissário e Marginal. Temos no Mackenzie vários projetos que mostram estas alternativas e não caem nos exageros de propor túneis enormes ou o enterramento da linha de trem.
Além disso, o que se propõe aqui é a derrubada do trecho aéreo e a reurbanização do sistema São João / Amaral Gurgel / Duque de Caxias, e não a interdição de toda a ligação leste-oeste.
Outro fator que desmancha a argumentação dos rodoviaristas, que vaticinam o caos no trânsito da cidade com a derrubada do elevado, é o fato de que o aumento de congestionamento de automóveis que sua demolição provocaria não chega a ser, estatisticamente, sequer significativo diante do volume de congestionamentos existentes na cidade nos horários de pico. Basta ver os números.
É preciso lembrar que hoje a cidade tem uma capilaridade muito maior, e um trânsito tão ruim que sua adaptabilidade ao fechamento de qualquer via é, paradoxalmente, rápido e eficiente. Prova disso, por exemplo, foi o fechamento da Rua Pinheiros e arredores por mais de uma ano para a obra da linha 4 do metrô. Causou transtornos, claro, mas a cidade não parou. E os fluxos são comparáveis.
Mas, o que me parece mais grave é ver que a argumentação oficial para a manutenção do minhocão endossa exatamente os argumentos dos críticos do Plano Diretor e dos defensores do modelo rodoviarista de urbanização, que contradizem avanços tão bravamente conquistados sob a batuta do Secretário Fernando e equipe no executivo e do Vereador Nabil e equipe no legislativo.
Vejamos… se não se pode derrubar o minhocão pois isso acarretaria transtornos ao trânsito de automóveis, e se não se pode tocá-lo pois ainda não há uma rede de transporte coletivo de alta e média capacidade para substituí-lo como podemos, então, pintar centenas de quilômetros de faixas de ônibus – inclusive com binário de ida e volta na mesma rua – tornando o trânsito de automóveis claramente mais lento?
E o que dizer das ciclofaixas então? Basta ver a da Libero Badaró, no centro, que estreitou a rua mais importante da rótula e impede a parada de automóveis, inclusive táxis, sem que um centímetro sequer de calçadas fosse ampliado…
Bem, dois pesos e duas medidas não são bons nem do ponto de vista técnico, nem do ponto de vista político.
Mas, por fim, o importante é que a questão realmente nem é esta, o trânsito.
O ponto central é o estrago sistêmico que o Costa e Silva provoca no chão da cidade, do centro da cidade, na vida da cidade, inviabilizando seu uso pleno e sua apropriação pelo cidadão com qualidade funcional e ambiental, seja para os moradores, seja para os usuários permanentes ou temporários, seja para os transeuntes.
Qualquer investimento ou ação de renovação, recuperação, remodelamento, reconversão ou qualquer outro nome que arquitetos e urbanistas encontrem para este tipo de operação que se queira fazer no centro de São Paulo, e bilhões já foram ali investidos, equipamentos construídos, ruas e prédios reformados, esbarra num limite. O minhocão.
E uma cidade sem centro é como um organismo acéfalo, que não consegue articular todas as suas áreas e funções.
A degradação provocada pelo elevado atinge pelo menos 500m de cada um de seus lados. Estamos falando, portanto, de mais de 3.500.000m² de área de cidade. Sem contar as edificações existentes que são subutilizadas, o que pelo menos triplica este número. São 10.000.000 dez milhões de metros quadrados de área a ser melhor utilizada.
Nestas áreas se pode construir uma quantidade enorme de edificações novas, reciclar outras, propor reusos e novos usos… Sem falar dos espaços públicos de qualidade existentes e desperdiçados e outros mais que poderão ser construídos.
O uso misto com ênfase residencial, como propõe o Plano Diretor, poderá se viabilizar com tranquilidade, com a construção de habitações que vão de HIS a padrões médios e médio-altos, que terão a possibilidade, sem ironia, de emergir das sombras e viabilizar a cidade inclusiva que almejamos.
Sim, pois esta ocupação  mista e abrangente existe e é um dos aspectos mais interessantes da área.
Espero que daqui para frente quem quiser manter o minhocão, ou protelar sine die sua demolição, diga apenas que demolir é caro.
Enfim, abaixo o minhocão, a cidade para o cidadão.
Valter Caldana
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