A RUA É PÚBLICA!

Bloco Banda Redonda brinca pelas ruas do centro de São Paulo ( cercanias da Rua da Consolação e praça da República). FOTO: JF DIORIO/ ESTADÃO

Está incrível a ocupação das ruas de sampa pelos blocos e cordões.
É a cidade/território sendo retomada e reconquistada pela cidade/cidadã…

Acertou a prefeitura ao não cobrar as taxas de interdição de ruas (sim, isso é pago para a CET) de modo a viabilizar uma maior participação de blocos populares espalhados pela cidade, acolhendo e incentivando a festa.

Como dizia o  grande Plínio Marcos, um dos fundadores da Banda Redondo (do bar Redondo que, aliás, alguém poderia reabrir!),

“… em São Paulo nem todo bloco é de concreto e nem todo cordão é de isolamento…”

Todo este movimento e esta alegria me faz lembrar de como gritávamos, nem tanto tempo atrás, quando algum carro ousava atrapalhar nosso futebolzinho sagrado ou passava numa velocidade maior que o razoável pela rua onde ficávamos aprendendo a viver a cidade, a viver a vida…

_ A RUA É PÚBLICA!

É sempre lindo andar na cidade de São Paulo,de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo (premê)


Valter Caldana

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CONSTITUINTE JÁ

O dantesco espetáculo de ontem, com o fecho de ouro do pronunciamento do chefe supremo do judiciário, apenas confirma a necessidade de uma CONSTITUINTE JÁ, convocada com fins exclusivos, independente do Congresso Nacional, com a possibilidade de eleição de candidatos apartidários e com quarentena de cargos públicos para os deputados constituintes após o encerramento dos trabalhos.

Não quero discutir a politização deste e de outros julgamentos.
Bem ou mal os mensaleiros petistas estão, sim, presos e os mensaleiros do PSDB sequer estão sendo julgados. Mas, basta cada partido entregar suas jóias da coroa como fez o PT para aplacar a sede de justiça e tudo ficar como está?
Adiantará o PSDB e os outros partidos permitirem que seus deslizes sejam julgados se isso não significar uma profunda alteração nos usos e costumes da política e da gestão pública no Brasil?

Um país que privatizou o Estado não pode agora estranhar que o Governo e a Política tenham virado um balcão de negócios. Vário países do mundo, inclusive no “primeiro” mundo, estão pagando a conta do desmonte do aparelho de estado feito nos anos de 1980/1990, não apenas nós.

Por isso, inclusive, sou dos que acha que a maior contribuição deste processo do mensalão petista, que é pouco falada e espetacularizada, é o fato de que há corruptores também condenados e presos. E sou dos que não acham estranho que isso não seja louvado cotidiana e intensamente por nossa mídia…

O fato é que temos no executivo decisões de governo (de todos os partidos) construídas a partir de processos licitatórios viciados ou equivocados, ainda que legais, destruindo nosso patrimônio e comprometendo nosso futuro todo o tempo.

Temos no legislativo acordos explícitos e implícitos que são retro-alimentadores e mantenedores de seu próprio status-quo, tornando Congresso, Assembleias e Câmaras lentos, inoperantes e afastados dos anseios populares ou da sociedade civil organizada, comandados por lobbies e grupos de interesse.

E, agora, temos o judiciário assumindo sua falência e pedindo concordata nas palavras de seu Presidente, expondo em rede nacional toda sua fragilidade, suas mazelas…

O fato é que só uma Constituinte poderá fazer as reformas política, tributária e do judiciário que estamos precisando urgentemente.

Vale lembrar que desde 1824 a vida média das constituições do Brasil é de 25 anos, a idade da atual.

E que isso se explica, no nosso caso, pela velocidade de transformação e pelo aumento da complexidade das relações econômicas, políticas e sociais que experimentamos ao longo de nossa História, como país e como Nação.

É chegada a hora…

Valter Caldana

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Luiz Telles – paixão e liberdade

Perdemos Luiz Telles.

Um arquiteto de mão cheia, um agitador, um ser humano especial.

Daquelas pessoa iluminadas, cientes de si, de seus desejos e de suas possibilidades, passou a vida indo adiante, superando barreiras, preconceitos, dificuldades.

Escolheu para isso os caminhos do ofício. Desenhando, projetando, cantando, discursando, provocando. E como provocava.

Mas escolheu, também, o caminho do diálogo e da generosidade, do respeito pelo outro.

Telles gostava de gente, e por onde passava isso ficava claro. Por isso, por onde passava havia sempre tanta gente, gente disposta a ouvi-lo, a aprender com ele. Gente com quem, ele dizia, aprendia sempre, cada vez mais.

Num determinado momento da vida, já consagrado por projetos como o Centro Cultural São Paulo, resolveu fazer mestrado. Mal sabia ele que o destino o chamava para uma segunda fase em sua carreira brilhante.

Presenciei o dia em que aceitou o convite/desafio para ser professor no Mackenzie, a faculdade em que se formara e tinha tantos amigos.

Chegou assim de mansinho, e logo descobriu aqui uma nova face para sua atuação. Se animou, fez doutorado, se dedicou ao ensino e à faculdade de corpo e alma. Descobriu o prazer da cátedra, da pesquisa, o prazer de estar com os jovens todo o tempo, remoçando. Fechou o escritório e virou professor em tempo integral.

Assim é o Telles, intenso.

Conviver com ele foi um privilégio. Sobretudo ter tido a oportunidade de ter feito com ele alguns projetos de grande significado para a escola, como a reforma da sede.

Mas prazer mesmo eu tive por ter podido contar para ele uma pequena história: moleque de rua do interior, recém chegado a São Paulo, descobrindo tantas coisas, confundindo cabresto com estirante, um dos lugares que mais me fascinavam por aqui era o Mercado de Pinheiros, onde eu ia acompanhado por meus pais. Um mundo à parte, uma nave espacial, um prazer especial.

Quando lá, eu empurrava o carrinho de compras e descia as rampas helicoidais como um foguete, como se fosse a Lotus de Emerson Fittipaldi, e meu pai me repreendia. Eu, então, respondia: “_ Mas pai, tem um cano lá que é feito para bater o carrinho… Por isso é que pode! A gente bate no cano, não na parede. Vem ver!” E lá ia eu de novo rampa abaixo, mostrando aquele achado, demonstrando a pertinência e a funcionalidade daquele cano, desfrutando por alguns segundos de uma liberdade indescritível…

Ali, naquele espaço cheio de cores, cheiros, em que se podia entrar às vezes por cima, outras vezes por baixo, com rampas e escadas curvas, monta-carga do tamanho do mundo, iluminação zenital e aves vivas em plena capital eu, hoje sei, comecei a me encantar por arquitetura.

Muito tempo depois eu soube que aquele espaço é de muito boa arquitetura porque usa os materiais corretamente e com dignidade, tem uma estrutura arrojada, uma funcionalidade impecável, uma proporção áurea, uma inserção urbana precisa e uma beleza surpreendente, como nos ensina Oscar Niemeyer.

E tem também detalhes sedutores, pormenores, como a guia para que os carrinhos não batam no concreto aparente. Uma espécie de roda carrinho onde se esperaria um rodapé, pura invenção.

Pois bem, acho que ali nascia um arquiteto, que 25 anos depois teve o prazer de se tornar amigo e a honra de dar aulas ao lado do criador daquilo tudo, o Telles.

E que teve o prazer de contar para ele esta historinha tola, num sábado pela manhã, logo depois da última formatura dos alunos que ele tanto amava e que não pode assistir. Mas que sonhou.

Valter Caldana

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HILDEGARD ANGEL:É MEU DEVER DIZER AOS JOVENS O QUE É UM GOLPE DE ESTADO

NESTE MOMENTO EM QUE UM GOLPE RONDA UM PAÍS VIZINHO, É MEU DEVER DIZER AOS JOVENS O QUE É UM GOLPE DE ESTADO
Publicado em 20/02/2014
Neste momento extremamente grave em que vemos um golpe militar caminhar célere rumo a um país vizinho, com o noticiário chegando a nós de modo distorcido, utilizando-se de imagens fictícias, exibindo fotos de procissões religiosas em Caracas como se fosse do povo venezuelano revoltoso nas ruas; mostrando vídeos antigos como se atuais fossem; e quando, pelo próprio visual próspero e “coxinha” dos manifestantes, podemos bem avaliar os interesses de sua sofreguidão, que os impedem de respeitar os valores democráticos e esperar nova eleição para mudar o governo que os desagrada, vejo como meu dever abrir a boca e falar.

Dizer a vocês, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que é de fato uma ditadura.

Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como são a Inconfidência Mineira e outros episódios pontuais de usurpação da liberdade em nosso país, eu não estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas tão raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.

Fazer as feridas sangrarem é obrigação de cada um dos que sofreram naquele período e ainda têm voz para falar.

Alguns já se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade própria. Terceiros, por cansaço. Muitos, por desânimo. O coração tem razões…

Eu falo e eu choro e eu me sinto um bagaço. Talvez porque a minha consciência do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catatônica, sem prestar atenção, caminhando como cabra cega num cenário de terror e desolação, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, só vi o vazio de minha própria cegueira.

Meu irmão, meu irmão, onde estás? Sequer o corpo jamais tivemos.

Outro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que passávamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou não, ouvi: “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.
Ah, meu deus, e como nós, as famílias dos que morreram, éramos e somos completamente infelizes!

A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colchão de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa fé de uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma “invasão vermelha”, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.

Deu-se o golpe! Os jovens universitários liberais e de esquerda não precisavam de motivação mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acadêmico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o índex nacional engendrado pela prepotência.
As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, papéis e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhança, sem explicações nem motivo, bastava uma denúncia, sabe-se lá por que razão ou partindo de quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas à luz do dia. Ra-ta-ta-ta-tá e pronto.

E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.
Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre “as malas do Golbery” ou “as comissões das turbinas”, “as compras de armamento”. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro José Gregory, com a instalação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos no governo Fernando Henrique Cardoso.

Meu pai, quatro infartos e a decepção de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esforço e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando ofício, via o Brasil roubar-lhe o primogênito, Stuart Edgar, somando no nome homenagens aos seus pai e irmão, ambos pastores protestantes americanos – o irmão, assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Tragédia que se repetia.

Minha irmã, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha mãe teve a informação de que sua sala de aula, no curso de Ciências Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. Até hoje, ela vive no exterior.

Barata tonta, fiquei por aí, vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica de minha profissão de colunista social, que só me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas também uma insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.

Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada vocação, que, logo após o assassinato de minha mãe, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a infância para tal e já ter então alcançado o espaço próprio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu próprio fim.

Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espaço para tantos papéis, vestidos, rabiscos, memórias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver apesar de tudo, e promover nessa plantação tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar os meus mártires e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu país, quer na moda, na arte, na política, nos exemplos deixados, na História, através do maior número de ações produtivas, efetivas e criativas que eu consiga multiplicar.

E ainda há quem me pergunte em quê a Ditadura Militar modificou minha vida!
Hildegard Angel

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Cumbica e o padrão Fifa

PARA DISCUTIR O PADRÃO FIFA DE AEROPORTOS…
E também para entender qual o real impacto da copa em cidades como São Paulo e Rio.

O aeroporto de Cumbica, este injustiçado que ficou abandonado por 30 anos e que de modo irresponsável seguidos governos estaduais e federais não o terminaram, tem um projeto tão bom que está aguentando até hoje… Dos 20 milhões de passageiros/ano previstos, atende 35.000.000 (milhões).

Pois bem… a expectativa de público “extra” para a copa da fifa neste aeroporto não chega a 500.000 passageiros. Diz bom senso que mudanças de escala, de horários de partida e de chegada, poderão minimizar muito o impacto deste contingente (que corresponde a um acréscimo da ordem de 15% do movimento no mês de junho/julho). Tanto é que boa parte das aéreas não vão usar o terminal novo…

Bem, então alguém pode explicar por que a pressa foi o grande motivo alegado para privar São Paulo de um belíssimo e adequado aeroporto – o projeto de Biselli e cia. foi cancelado quando da privatização – desfalcando nossa cidade de um equipamento de padrão internacional (e não fifa) como tem que ser, e nos brindando com um galpão de supermercado travestido de TPS?

Por que a teimosia em não mexer com a base aérea, o que aumenta significativamente o custo de qualquer ampliação?

Fora esta alcunha indigna de “GRU Airport” …

Salve o Aeroporto Internacional André Franco Montoro – Cumbica.
Aeroporto de São Paulo.

Valter Caldana

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