Socialista socializante

Num país que acredita que o Putin é de esquerda e a Rússia é comunista, que troca conceito por noção e que confunde densidade com altura, se consolidou a crença de que a Outorga Onerosa é imposto e, pior, coisa de socialista.

E, como aprimoramos por aqui o péssimo hábito espalhado pelo mundo de ler apenas prefácios e introduções, levando-o ao extremo de nos atermos às orelhas (dos livros) e, hoje em dia, aos seus títulos e a manchetes de internet, bastou numa delas aparecer a palavra socializante para que se fizesse uma leitura ideológico-partidária do instrumento. A Outorga é coisa de esquerda.

Pronto. Aí a festa vira orgia, aliás, outra confusão conceitual cada dia mais comum, dizem.

Ocorre que o que é socializante não é de esquerda, nem é socialista. É socializador. Alguns socialistas também são socializadores, é verdade, mas nem tudo o que é socializador é socialista.

Por exemplo, o amigo e a amiga aqui da lista descem para o ‘play’ com seus filhos, entre outras coisas, para ele socializar com outras crianças do prédio. Não me consta que vocês estejam lá para criar pequenos militantes socialistas ou guerrilheiros maoistas.

Outro exemplo.

Numa grande empresa S/A, quando esta paga seus dividendos (que vem de dividir) aos acionistas, ela está socializando os lucros. No condomínio, quando se faz o rateio do conserto da prumada, se está socializando o prejuízo… Mas, seu prédio não se tornou a embaixada da renata Rússia comunista nem mesmo da inexpugnável Coreia do Norte. Ou a S/A certamente não é um aparelho de propaganda sino-soviética.

Então..

A Outorga Onerosa é tão socialista quanto a comuníssima (leia a palavra anterior com atenção, está escrito comuníSSIMA, não comuniSTA) medida de socializar as perdas e os ganhos em vários empreendimentos absolutamente capitalistas, sejam eles públicos ou privados. Aliás, quando há uma guerra e se aumentam os preços, o que se está fazendo é socializar as perdas.

Ou ainda.

Você vai num banco pois quer construir um prédio (ou uma casa, ou fábrica, ou loja, ou shopping, ou etc…) e pede um empréstimo, um dinheiro adiantado para fazer o dito cujo. Você (ou seu cliente) vai pagar ao banco, no final, o valor que recebeu emprestado mais os juros correspondentes. Operação legítima, legal e nada socialista.

Pois bem, voltemos à Outorga Onerosa.

A Outorga Onerosa é, apenas e tão somente, um mecanismo através do qual uma pessoa recebe de volta o dinheiro que emprestou adiantado para outra pessoa. O mesmo que o banco faz, legalmente, e os agiotas tentam fazer, ilegalmente.

Neste caso, uma pessoa é o poder público, a prefeitura, que emprestou dinheiro adiantado. No outro lado está o beneficiário deste empréstimo, seja você, eu ou qualquer o outro que vai usar e/ou usufruir deste dinheiro que nos foi adiantado.

Explico melhor.

Um dos motivos pelos quais escolhemos um determinado lugar para morar ou trabalhar (empreender) é sua localização. O outro é o quanto podemos pagar. Nesta ordem. (Há um terceiro, que é a qualidade do produto, mas deste falamos depois e sim, vem em terceiro lugar)

Pois então. Escolhe-se o lugar que seja mais adequado, entenda-se aí, mais equipado, com melhor vizinhança. Por vizinhança se entende o conjunto vizinhos humanos (gente, pessoas) e vizinhos cidade. Aí se incluem os comércios e serviços privados (que ali se instalaram também usando o critério localização) e a infraestrutura e os serviços públicos, concedidos ou não (água, luz, esgoto, transporte, educação, saúde, segurança, lazer).

Assim, o primeiro critério de valoração é, portanto, a presença dos serviços, em especial os serviços públicos, que são os mais difíceis de implantar, os que demandam mais dinheiro líquido, mais garantias, que envolvem mais riscos. Ou seja, os mais caros e que são feitos adiantado, antes da valorização da vizinhança. E que são feitos justamente para… valorizar a vizinhança!

Calma!

Sim, amiga, amigo, vizinhança esta que, sim, será valorizada, posteriormente, também pela sua honrosa e valiosa presença ou pela não menos valiosa presença de seu negócio. Mas, relembro, vizinhança escolhida pela melhor localização que seu dinheiro poderia pagar.

Continuando. Como valoração não é valorização, estamos aqui falando da valorização provocada pela valoração, pela presença de qualidades e qualificadores na vizinhança que agregam valor. Estamos falando sobre o dinheiro que foi colocado adiantado pelo poder público para valorizar o lugar, a vizinhança e que está embutido no valor e, sobretudo, no preço final do produto quando colocado à venda.

Mas, e o imposto, o IPTU? Este já é pago sobre o terreno, sobre o imóvel e sobre a infraestrutura do lugar, a tal da vizinhança. A Outorga seria, então, uma duplicidade.

De fato, não. O IPTU paga duas coisas: uma é o direito de ter, de chamar de meu. O Poder (o rei, a rainha, o governo, o Estado, o Papa, o Cardeal, … neste caso a prefeitura!) por serem os detentores do poder cobram para nos deixar sermos donos de alguma coisa. Simples assim.

A outra coisa que o IPTU paga é justamente a infraestrutura instalada, sua manutenção e um “extrinha” para sua expansão. O que dá a impressão de já ser a outorga… Mas não é. Simplificadamente, o IPTU é a taxa de condomínio, é o que pagamos por mês para morar na cidade. Se nosso prédio/cidade tem mais serviços, pago mais caro o condomínio.

E isto não se confunde com a outorga pois esta se refere à valorização provocada pela presença da infraestrutura. Ou seja, a Outorga Onerosa incide sobre a valorização propiciada pelas melhorias pagas pelo dinheiro arrecadado (sobretudo) pelo IPTU.

De uma maneira didática, se poderia dizer, então, que esta parte do IPTU (fora a do direito de ter) seria o pagamento, a paga do principal da dívida, do dinheiro que foi “emprestado” adiantado para a instalação da infraestrutura. Já a Outorga Onerosa, o pagamento dos juros sobre este capital.

A Outorga paga a remuneração do capital investido adiantado e o risco assumido ao se fazer o adiantamento. Assim, ela é apenas um mecanismo de recaptura pelo poder público de parte do valor agregado pelos investimentos públicos numa determinada área por quem colocou ali o capital adiantado e financiou a operação, o próprio poder público.

Desta forma consegue aliviar a carga sobre o caixa gerado por impostos, aumenta a capacidade de investimentos da prefeitura para entregar uma cidade melhor e, portanto, revalorizar as próprias áreas que geraram a valorização do capital e, além de tudo, ao permitir investimentos também em outras áreas, melhorar significativamente o ambiente de negócios da cidade. O que valoriza os lugares e eleva seu valor agregado. “Da capo al fine”.

Acredite.
Nada menos socialista, ainda que fortemente socializante. Socializador.

Valter Caldana

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FARTA ABUNDÂNCIA

Participando de uma conversa sobre nossa matriz energética agora há pouco, me dei conta de que se considerarmos
que temos sol em abundância, água em abundância, vento em abundância e até mesmo petróleo em abundância, as principais fontes de energia do planeta;
que temos matérias primas em abundância e áreas agriculturáveis em abundância (frente a outros países que quase não as tem);
que temos um povo criativo e trabalhador em abundância…
talvez nos falte abrir mão de umas duas ou três coisinhas que também temos em abundância.
Entre estas,
o fatal e recorrente menosprezo à inteligência, à pesquisa e à produção de conhecimento, a boa e velha opção pela ignorância;
a dependência doentia de incentivos fiscais, o chamado apoio ‘do governo’ aos setores econômicos e produtivos;
a histórica aversão aos riscos inerentes ao capitalismo.
Com isso, claro, possivelmente precisemos fazer a revolução burguesa, que por aqui é página não lida de livro de história não aberto…
Como disse alguém… Brasil, o país da miséria farta. Abundante.

Valter Caldana

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SOBREMESA

Muito se tem falado que a guerra da semana é uma manobra eleitoral para tentar salvar os dois últimos anos do governo Biden, construindo uma coesão que ele perdeu rapidamente, se é que teve em algum momento.
Ainda que previsível e comum por lá, acho um certo exagero, mas não arrisco um palpite. No entanto, há um aspecto da eleição de Biden no qual precisamos prestar muita atenção. Ele foi eleito.
E foi eleito na contra marcha, contra a maré.
Ou seja, a opção conservadora que o partido Democrata adotou foi claramente focada em primeiro ganhar a eleição para depois ver como fica. Ao contrário do que ocorreu na eleição de Obama para derrotar o ‘normal’ Bush II, quando o presidente era mais aberto e o vice mais conservador, para derrotar o ‘anormal’ Trump a opção foi um presidente conservador e uma vice menos. E mulher, o que já vimos bem o que significa nos EUA.
Até aí, nada novo e tudo óbvio.
O que parece um pouco mais novo, com a guerra, é que este processo, o “primeiro ganha a eleição e depois vemos como fica”, que conhecemos bem, está ganhando proporções planetárias.
Este processo é, como sabemos e sentimos na pele, muito perigoso, de alto risco. Mas, pelo visto, lá, como na Europa, como cá, é o que temos para hoje. É o prato do dia.
Aqui, ao menos por enquanto, ele só está nos reservando uma edição esquisita do masterchef, indicando como prato principal ‘buxada de bode com soufflé de XuXu’…
O que dá medo é a sobremesa…

Valter Caldana

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SER

No dia em que eu deixar de ser capaz de sentir a miséria de um miserável porque não sou, a fome de um faminto porque não sou, a humilhação de um preto porque não sou, o pavor de uma mulher porque não sou, a impotência de um explorado porque sou pouco, a solidão de um velho porque quase sou, a ansiedade e a angústia de um jovem porque já fui, eu simplesmente já não serei.
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Aliás, a este conjunto de sentimentos a língua portuguesa deu um nome. Tão lindo e em desuso quanto o próprio sentimento.

Valter Caldana

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PAGU

Relativizar a importância da semana é tão baixo, é tão espúrio, é tão vil, que apenas confirma a sua importância.
Não diferenciar a necessária e bem vinda crítica, livre, constante, ampla, instigante e provocadora da negação e desvalorização da própria história e das próprias raízes através de uma pressuposta relativização da importância radical (de raiz, viu?) da semana não é ignorância ou incompetência. Não é subordinação. É má fé.
Salve Pagu!

Valter Caldana

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