Ensino sem fundamento

A Folha traz hoje um bom retrato do ensino fundamental que, como o nome diz, é fundamental. (leia aqui)

Deixando a turbulência política de lado, se considerarmos que o Brasil pós Figueiredo e sobretudo pós Collor/Itamar teve 5 governos e três presidentes com discursos, digamos, humanistas, 20 anos de tranquilidade política e pelo menos dez de tranquilidade econômica, é preciso reconhecer que a maior derrota de nossa geração está na educação.

É imperdoável não termos até hoje um sistema de ensino em tempo integral implantado nacionalmente, acompanhado de uma rede de formação de professores de alta qualidade e a valorização de projetos arquitetônicos adequados à processos de ensino-aprendizagem contemporâneos.

Valter Caldana

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Eleitoral não é político

Um dos efeitos colaterais danosos deste retrocesso vexaminoso (pois não basta o retrocesso, que faz parte do jogo político em países como o nosso, tem que ter vexame!) a que fomos submetidos é que agora vão começar a surgir propostas de reforminhas pontuais “bem intencionadas” feitas por alguns políticos que terão ficado um pouco mais constrangidos com seus próprios comportamentos.

É o caso de propostas para acabar com a reeleição para o executivo, acabar com a reeleição infinita para o legislativo, voto distrital, voto distrital misto, voto em lista, fim da proporcionalidade transformando a eleição para deputado também em eleição majoritária… Capaz até de aparecer alguma proposta de eleição direta para Presidente e para juiz e promotor.

O problema disto é que será um monte de remendos desconexos e incoerentes, que não terão unidade e sentido e transformarão nosso sistema eleitoral numa coisa ainda mais esdrúxula. Isto, claro, além de serem todos eles mais facilmente negociados, rejeitando-se os bons e aprovando-se os ruins e os inócuos, construindo na sociedade a sensação de que algo está sendo feito.

Num país que não consegue superar o limite de três meses na análise de conjuntura como aprendemos nos episódios recentes, é natural que se confunda reforma política com reforma eleitoral.

Mas, infelizmente o nosso problema não é a necessidade de uma reforma eleitoral, que tentam de quando em vez nos vender como reforma política.

Nosso problema não se limita mais a como se vota, não é de forma ou de rito. Aliás, estes funcionam muito bem, “dentro das regras constitucionais” como se habituou a se jactar atualmente grande parte da sociedade.

Nosso problema é o sistema político.

Nosso problema é de legitimidade da representação (eu acho que, inclusive, das instituições). Por isso a reforma política, a que precisamos, é a Constitucional, que mexe com o pacto federativo, com a proporcionalidade da representação regional, com o sistema de financiamento, com o número de partidos, com a função e com os limites de função dos três poderes e seus agentes sobretudo no trato do orçamento, entre outras questões estruturais, não conjunturais.

Tudo isto terminando, preferencialmente, num referendum/plebiscito.

Esta reforma, estrutural e não conjuntural e muito menos perfunctória, nem em sonho de fim de noite mal dormida!

Valter Caldana

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Quem perde, ganha?

Na linha do ganha e perde, fico me perguntando: será que o Aécio percebeu que é, até o momento, o único derrotado nesta confusão toda que ele em parte (só em parte, pois o grosso quem armou mesmo foi o governo) ajudou a armar ao não aceitar o resultado das eleições?

Senão, vejamos:

Dilma: Fique ou saia, ganha. Se ficar, ganhou, se sair, sairá como vítima, como uma presidente que deixou combater a corrupção, que enfrentou os juros abusivos, que privilegiou setores produtivos da indústria e do agronegócio e por eles foi abandonada, que enfrentou os políticos e por isso foi por eles defenestrada. Para a História, ganhou.

Lula. Este, nem se fala. Se Dilma fica, ganhou. Se Dilma sai, ganhou pois em qualquer caso foi recolocado no protagonismo do processo político quando já estava a caminho do pijama, num sítio que não é dele, cuidando de uma doença que não tem. Ganha, em qualquer caso, por ser o candidato líder de intenções de voto ainda hoje. E, se for pego pela lava a jato ainda é capaz de ganhar pois também terá a chance de ir para a História como foi Getúlio, um bandido para seus inimigos e, já para o povo, um herói traído e perseguido.

Serra: Só ganhou. A sorte lhe sorri novamente. Na pior das hipóteses para ele, se Dilma fica, ressurge como o grande líder da oposição e da centro direita no Brasil. O único com envergadura para ser presidente por este amplo segmento social em 2018. Se Dilma cai, ganha e vai para o governo preparar a sua candidatura.

Mesmo Temer ainda não perdeu pois, por óbvio, se Dilma cai, ganhou. Este, está disputando. Pode até perder, mas se perder, não será como Aécio, simplesmente colocado fora do jogo. Terá perdido disputando (a seu modo).

Já Aécio: perdeu a eleição, perdeu o comando da oposição, perdeu o comando do partido e pior, a meu ver, decepcionou seus companheiros e colegas de geração.

Valter Caldana

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Mais minhocão

A Folha publicou hoje mais uma matéria sobre o minhocão. Leia aqui

Desde a aprovação da Lei que permite à Prefeitura colocar dinheiro bom em coisa ruim, nesta porcaria, eu parei de falar no Minhocão… Uma certa tristeza resignada se abateu sobre meu espírito. Ms ao ver esta matéria não resisti. Me desculpo.

Os custos diretos (dos indiretos já falei em outras ocasiões) envolvidos na manutenção do elevado são tão acintosamente astronômicos que não há o que os justifique em nossa cidade hoje. E o argumento, expresso na matéria, de que não se trata de investir nada ali pois o parque já existe chega a agredir.

Mas vamos lá… consideremos que o parque já existe!

Desta afirmação, por observação se pode tirar duas conclusões.

A primeira: ele existe, funciona e não altera e não melhora em absolutamente nada a vida de quem mora, de quem trabalha, de quem frequenta, de quem passa por aquela região da cidade; como se não bastasse, ele não colabora em absolutamente nada para superar os problemas do centro que o elevado causa; por fim, ele não auxilia em nada a necessária rearticulação das áreas centrais com a cidade e a região metropolitana.

A segunda: tudo o que se tem feito sobre o elevado pode ser feito melhor e de forma mais abrangente no chão da cidade.

Portanto, por que a insistência em mantê-lo?
Abaixo o minhocão, a cidade para o cidadão!

Valter Caldana

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A receita do confronto

No âmbito interno, há uma coisa que iguala e outra que diferencia a queda de Jango, Collor e Dilma.

A que iguala é que os três estavam em meio a uma forte crise econômica.

O que diferencia: enquanto Collor era um presidente isolado, sem base parlamentar e tampouco popular, Dilma e Jango as possuem. Aparentemente não o suficiente para mantê-los no cargo, mas o suficiente para deixar claro que não haverá agora, como não houve em 1964, a possibilidade de um governo de união. O próximo será um governo de coalização, só que de outra coalizão, desta vez composta pelo pmdb e a turma que perdeu a eleição.

Com a queda de Collor, a habilidade de Itamar em saciar o apetite do PMDB de então – de quem Collor havia tirado parte da ração – e em contemplar o desejo de espaço de algumas então ascendentes lideranças – que ficaram de fora do governo Sarney e do próprio Collor – houve a possibilidade de um governo de união (do qual só o PT ficou de fora). Governo este que conseguiu reafirmar uma série de pontos programáticos da eleição de Collor no campo econômico, avançar em outros e de quebra passar a sensação de revalorização das instituições e a Democracia.

Já com Jango e Dilma a realidade é outra. Sem a possibilidade de um governo de união e com a oposição, ainda que minoritária, nas ruas, no seio da sociedade e no Congresso agindo e fazendo pressão em variados graus de virulência e engajamento, só restará aos que assumem o poder, como em 1964, o endurecimento como resposta. É a receita do confronto.

Caso seja aprovado o impeachment de Dilma, temo que esta seja a realidade que nos aguarda:
. Um governo central acuado pelo judiciário, até mais do que o atual pois as figuras que o assumirão são mais implicadas com corrupção que a presidente que cai;
. sob pressão da parcela situacionista do Congresso para colocar um fim nas investigações pelo judiciário, o que aparentemente é líquido e certo;
. sob pressão da oposição, que estará raivosa e liberta para fazer o que sabe fazer;
. contando com a má vontade de parcela da sociedade;
. sem capacidade de dar respostas de curto prazo na esfera econômica e assumindo medidas altamente impopulares e;
. com a necessidade de se apoiar no aparato repressivo de seus principais governadores, SP, PR, RS e RJ.

Então, como em 1964, ao golpe parlamentar se seguirá um golpe militar?

Não, nem mesmo se tem unanimidade sobre se o que está ocorrendo hoje é um golpe. Aliás, discutir se este movimento é um golpe o não é o que menos interessa neste momento. O arranhão na Democracia, o corte na normalidade, a desmoralização internacional já ocorreram, qualquer que seja o nome.

Além do mais, um golpe clássico não é necessário. O aparato judicial e o aparato repressivo hoje são muito mais sofisticados e operam dentro da legalidade, inclusive se aproveitando de seu grande apoio popular nas classes médias urbanas, hoje muito mais amplas e consolidadas do que em 1964, para se legitimar. Pelo menos nos seus meses (ou anos?) iniciais.

Valter Caldana

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