Sempre dá para a creditar.

Questões aristotélicas:

Existem duas, e apenas duas maneiras de se “pegar obra” no Brasil: a lícita e a ilícita.

A lícita é una, indivisível. Para ela existe até uma Lei, a de licitações.

A ilícita, neste nosso cestinho de mundo que a tudo racionaliza e relativiza, se subdivide em três: a ilegal, a imoral e ambas, ilegal e imoral.

A ilegal, todos sabem, é ilegal, fora da Lei.
A imoral é dentro da Lei, com alguma interpretação licenciosa que a justifique. Boa parte dos prestadores de serviço e vendedores para o Estado se vêem nesta situação.
A categoria ambas é bem menos aplicada mas bem grave também. É o banditismo puro.

Claro, aqui no cestinho de mundo onde ainda se compra indulgência plenária, quanto maior o valor da obra mais grave fica o pecado, como se a ele fosse possível aplicar dosimetria.

Pois bem.
O nosso problema estrutural é que a maior parte de nossas mazelas se situa na categoria imoral. Ou seja, é quase sempre legal.
Aí começa o problema aristotélico (por isso o cara falou de física, de política e de ética ao mesmo tempo).

Quando você enche uma caixa d´água com águas vindas de uma fonte limpa e outras águas vindas de uma fonte suja, quando você abre as torneiras – a da cozinha, a do banheiro e a do quintal, por exemplo – como se pode afirmar que a água de uma das torneiras é suja e a das outras é limpa?

Não se pode. Mas se pode acreditar, basta querer.

Já a caixa d´água, continua a mesma…

Valter Caldana

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Público | Privado : namoro, incesto ou rapina?

Quando se privatiza o Estado é natural (aceitável?) que ele se torne um balcão de negócios. É, portanto, de se esperar que o espírito público seja substituído pelo pensar privado.
Aqui neste nosso encantado cestinho de mundo se confunde bastante Estado mínimo com intervenção mínima, além de se confundir também comumente intervenção com interferência.

Nos EUA, por exemplo, a presença do Estado na economia (e na C&T e na P&D) é bastante grande. O Estado é um dos maiores compradores em diversos setores, de armamentos à alimentos, de serviços à obras.

Exatamente por isto o que fazem os americanos, prioritariamente, não é cuidar para que o Estado seja mínimo (isto eles cobram do resto do mundo), mas é cuidar para que seja mínima a promiscuidade entre o público e o privado, entre o próprio Estado e as corporações.

O PAC (e a Copa, e os Jogos), aqui, poderia ter sido um exemplo disto. No entanto, nasceu e cresceu sob o manto das relações viciadas e incestuosas entre o Estado e as empreiteiras, penalizando mais uma vez a sociedade que além de pagar várias vezes pelo mesmo, ainda assim é mal atendida.

O objeto central, portanto, não é ser contra ou a favor as múltiplas modalidades de parceria entre o público e o provado. O objeto central é saber construir mecanismos públicos de controle desta relação.

Valter Caldana

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E este governo, hein?

Quanto à defesa deste governo, serei mais breve. Respeito-o como governo eleito, lamento o caminho e os rumos que tomou. Se o apoio? Digo a você que não.

Eu teria dificuldades em apoiar incondicionalmente um governo que faz o rdc, a mp 700, que dá seguidas mancadas na questão ambiental, insiste em não assumir a importância do projeto no mcmv, não propõe uma revolução na educação fundamental e, sobretudo, dá um cavalo de pau no seu rumo pós eleição sem explicar com todas as letras para a sociedade por que está fazendo isso…

Se apoio muitas medidas e programas que leva adiante? Sim, indiscutivelmente.

Não obstante, reafirmo que o pt não é nem meu problema, muito menos minha prioridade. Minha questão continua sendo: diante da indisfarçável e inadiável crise política e social (mais que a econômica) a que finalmente chegamos, delenda pt é a proposta?! É a sua resposta?

Mas respeito uma presidente (bem mais que ao seu governo) que enfrentou (e perdeu) a questão dos juros, que enfrentou (e perdeu) o cerco que os políticos profissionais impõem ao poder central, que tentou (e perdeu) alterar o sistema político ouvindo a população, que tentou (e vai perder) enfrentar a corrupção endêmica na qual acabou se afogando, inclusive por não ter sabido construir apoios na sociedade. Sabe por que a respeito? Por que nunca tinha visto ninguém tentar fazer isso. Nem que fosse para perder.

Se ela fez isso de modo atabalhoado, incompetente, posto que perdeu, eu continuo me perguntando: perdeu para quem? E respondo para mim mesmo: Perdeu em primeiro lugar para ela mesma, certamente. Mas perdeu também para todos os que não têm o menor interesse em que estas questões sejam superadas, com ou sem competência. Mais uma vez, como sempre, perdemos nós.

Valter Caldana

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Uma resposta a um amigo provocador: impeachment não!

Caríssimo Eduardo. Antes de mais nada, um pedido de desculpas pela demora em responder. Tive uma semana mais corrida que a da Dilma…
Quero te agradecer a tenção e a consideração com que lê meus posts. Fico feliz e honrado pois sou um amante inveterado do debate, como você bem sabe.
Mas vamos ao assunto. Você me escreveu:

“Meio estranho isso. Sujiro mais clareza na sua posição Valtão!”

Sempre achei que estivesse sendo claro, mas em respeito à sua leitura atenta e sua provocação acima, vou tentar ser mais…

Vamos ao ponto: Sou visceralmente contra o impeachment!

E, sim, entendo que, portanto, o governo tem que chegar até o fim de seu mandato, 31/12/2018.

Entendo, também, que a crise política, que retro alimenta a já suficientemente grave crise econômica, tem que ser resolvida por quem a criou. O povo deu seu recado nas urnas, a eleição empatou. Cabe aos políticos profissionais, a partir daí, resolver o problema no ringue, não fora dele.

Mas vou em frente. Não considero o impeachment um golpe. Um golpe seria episódico, talvez até reversível… Um tropeço ou um soluço em nossa História.

O impeachment, para mim, é doloroso pois é um retrocesso.
É o símbolo de um enorme e retumbante fracasso de toda uma geração, a nossa, que soube reorganizar o país, fazê-lo dar saltos enormes de 1985 a 2015, mas que está prestes a morrer na praia por se ter descuidado e deixado crescer um câncer que ali estava todo o tempo… A combinação da imoralidade com a falta de espírito público. E que, no momento em que tem a melhor chance (ainda que não a primeira) de extirpá-lo, opta pelo caminho mais fácil, que desmerece nossas lutas, nosso esforço e mostra sua verdadeira face.

Derrubar a presidente igualará o Brasil ao que de pior temos no mundo hoje e nos fará voltar no tempo, na ordem geral das coisas, não apenas os últimos 30 anos mas pelo menos 60. E sabe por que? Por que o Brasil está brincando (e isso já basta, mesmo que o impeachment não ocorra) com uma cláusula pétrea da Democracia mundial… o respeito ao resultado de uma eleição.

Nos fará retroceder – acho mesmo que o episódio em si já fez – porque o Brasil está mostrando ao mundo que continua se dispondo a abrir mão e a arranhar princípios elementares de direito para resolver uma questão política e econômica conjuntural (pois crises, no capitalismo, o são). Está mostrando ao mundo que não tem estrutura ética, jurídica, política e social para suportar um embate político acompanhado de uma crise econômica. Está mostrando ao mundo, enfim, que ainda vale por aqui a doutrina da “circunstância exige”.

Enfim, está mostrando seu verdadeiro caráter, que prefere abrir mão de princípios elementares a ir realmente a fundo na reconstrução de suas estruturas podres, carcomidas, cancerosas, que nos destroem por dentro.

Ou seja, está mostrando ao mundo que foi cedo demais para a sala de jantar… temos que voltar para a cozinha, e olhe lá!

Isto não por que o Brasil tem bandidos no parlamento e no executivo, mas por que ao ter a chance, mais uma vez, de eliminá-los, toma outro caminho. O caminho mais suave, a solução de curto prazo, a solução perfunctória, a ação circunstancial.

Mais grave, neste caso, toma esta decisão conscientemente. O Brasil dá mostras de que não quer realmente acabar com a corrupção, não quer alterar seu sistema político corrupto e corruptor, não quer realmente se estruturar em novas bases, em novos patamares, como acreditamos e trabalhamos para nos últimos trinta anos.

Ao misturar a crise política com a operação lava a jato e aplaudir que esta foque em Lula e Dilma suas baterias e os tenha como alvo está admitindo que o alvo não é a corrupção ou o sistema corrompido e seus corruptores.

Tirar Dilma hoje é isto, segundo minha percepção… é provocar uma catarse coletiva para distrair milhões, colocando nossos algozes em seu lugar. Nem Orwell escreveria um roteiro tão fascinante. Não há como não me lembrar, nestas semanas, dos cães saindo do celeiro em Revolução do Bichos. Ou a imagem de uma manada indo resignadamente para o matadouro, em ordeira fila…

Está óbvio para mim e espero que esteja para você também, que o processo do impeachment é um julgamento onde o veredito foi dado antes do início e agora busca-se legitimá-lo com o motivo. Qual motivo? Qualquer motivo.

Me lembra uma passagem de um velho faroeste (que procurei na internet e não achei) mas que era mais ou menos assim… a população de uma cidade havia prendido um sujeito por crime de roubo de gado (?). Queriam enforcá-lo e foram ao tribunal exigir um julgamento. Ao que o juiz responde: Vocês já decidiram pelo enforcamento. Enforquem-no, mas não contem com o meu tribunal para legalizar sua ação. Ela continuará sendo um linchamento.

É disto que se trata… se trata de resolver uma eleição empatada na marra, na mão grande, na porrada. Se trata de colocar em risco todo o país para resolver a eleição que já foi. Se trata disso. Se trata de uma disputa político-ideológica legítima que se utiliza, porém, de instrumentos desproporcionais e inadequados para sua solução. Esta disputa nunca se resolverá e suas etapas serão sempre superadas se fazendo política de qualidade (formulando soluções e indo debatê-las com a sociedade, ganhando sua simpatia e seu apoio) e nas urnas.

De qualquer forma, vou encerrando minhas participações sobre este tema. Nunca escrevo para convencer ninguém, aprendi na vida que isso é impossível. Em geral escrevo para compartilhar pensamentos. No caso do impeachment, escrevi um bocado para criar dúvidas, em mim e nos outros. Mas as respostas já estão dadas. Só nos resta pegar os cacos e tocar a vida. Com ou sem impeachment, perdemos todos.

Valter Caldana

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Político = desonestos?

Um julgamento onde se sabe qual a posição de cada jurado antes mesmo da leitura dos autos ou onde o seu condutor declara que não há limites para o que se julga não é um julgamento, é uma farsa.

Ainda que se concorde que o julgamento do impeachment é político e não jurídico, onde é que isso torna aceitável para nós, cidadãos, que ele seja injusto?

Onde se torna admissível para nós, cidadãos, que o juri possa ser, na melhor das hipóteses, tão bandido quanto o bandido em questão?

Ou a ideia implícita é que se é político então é desonesto, injusto e vale tudo?

É disso que se trata. É isso que nos desmoraliza a todos e não apenas àqueles que já se desmoralizaram a si mesmos e que seriam facilmente apeados do poder pelo rito proposto pelas regras democráticas.

País sério com instituições fortes e Democracia consistente tem mecanismos para atenuar e aguentar governo ruim.

E, neste nosso caso, nem sequer se tem ainda clareza em que este governo é ruim, apesar de todos concordarmos que, sim, ele é muito ruim.*
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* Dispensados todos os posts explicando por que este governo é ruim, uma vez que, como eu disse, isto é uma unanimidade por aqui. Ninguém defende este governo.
As posições antagônicas aqui dizem respeito a como se pretende combatê-lo: se é fazendo política no Congresso, nas urnas municipais em 2016, na preparação de uma memorável campanha para as eleições gerais de 2018, ou se derrubando-o custe o que custar (mesmo!) “por que assim não dá mais para aguentar”.

Valter Caldana

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