Espelho mágico

Hoje vi num canal internacional o presidente de uma república distante declarar para os jornalistas que ele acredita que a polícia de uma das províncias de seu país forçou um cidadão, sabe-se lá como, a prestar falso testemunho e que ele, de modo bastante ágil, se apoderou de provas de um inquérito policial antes que alguém, no processo, as adulterasse.

Não me lembro bem em qual país tal atrocidade aconteceu – o mandatário mor declarar suspeição quanto a conduta de uma força policial oficial – pois era uma notícia de jornal de tv e eu não estava prestando tanta atenção…

Mas, como na piada do taxista de Lisboa, fiquei tentando descobrir que língua institucional falavam na TV, pois eu quase entendia!

Valter Caldana

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Goooooollllll!!!!!!

ou da reforma da previdência ao zoneamento paulistano

É Gol,
Que felicidade!
É gol, o meu time é a alegria
Da cidade. ¹

O Brasil, entendido como tal a partir da inconfidência mineira, nunca produziu um projeto de nação, de Estado ou de país verdadeiramente coletivo, de baixo para cima, com real envolvimento de todos os segmentos, camadas, estamentos, castas e classes da sociedade.

Todos os projetos nacionais por que passamos foram impostos, e sempre se deram ‘de cima para baixo’. Sempre fruto de imposições de elites ou lideranças, ou ambas. E não me refiro aqui a questões de qualidade ou direcionamento ideológico destes projetos.

O que se pode notar é que todas as vezes em que houve participação social intensa e mobilização das ‘massas’, com grandes manifestações populares de rua, estas foram reativas e nunca propositivas. E sempre episódicas. No mais das vezes, reações à perda de privilégios ou de condições de vida, nos momentos em que estes projetos entram em crise ou se exaurem. Ou, simplesmente esticam a corda muito, mas muito mesmo, além do suportável.

O fato é que são sempre reações individuais a agressões sofridas coletivamente mas percebidas individualmente, ainda que simultaneamente. E é esta simultaneidade que provoca a ilusória sensação, sobretudo nos formuladores de políticas públicas, de que seja uma reação coletiva, provocando o clássico ‘falso coletivo’.

Isto faz com que os tais projetos nacionais, por falta de envolvimento na elaboração, de engajamento, de sentimento de pertencimento por parte da sociedade, tenham curta ou curtíssima duração.

Mesmo projetos de digestão fácil, como os projetos nacionalistas – em especial o dos militares da última ditadura – se esvaem. Prova disso é que nem mesmo na caserna o nacionalismo ainda encontra guarida. Temos as forças controladas por um comando que dá mostras de pouco valorizar o nacionalismo ou a preservação de riquezas e grandezas nacionais.

Assim sendo, a cada crise e a cada colapso de um projeto nacional em implantação exacerba-se ainda mais o individualismo na sociedade o que retroalimenta o processo. Não havendo ação coletiva propositiva, a somatória de reações negativas elimina precocemente as estruturas e os efeitos do projeto em colapso e comprometem as bases do que virá.

Isto se vê pelo comprometimento do nacionalismo, como já dissemos, e pela substituição do Brasil Grande pelo Brasil Vira Lata. Mais, se comprova exemplarmente pela facilidade com que legislações e políticas públicas de resgate da monstruosa dívida social acumulada em séculos, implantadas a partir da CF de 1988, estão sendo destroçadas pelos dois últimos governos, temer e Bolsonaro.

Ou na incapacidade de se implementar pactos por mais brejeiros que sejam, como o marco regulatório do desenvolvimento urbano numa metrópole como São Paulo, que depende disso vitalmente para sobreviver.

Enfim (como diz um amigo carioca, ele nunca acreditará na conversa de um paulista que não diga “enfim”), o fato é que enquanto no Brasil não formos capazes de formular um projeto nacional coletivo, de baixo para cima, que desperte os sentimentos mais sinceros de envolvimento, engajamento, alteridade e solidariedade, continuaremos nesta alucinada gangorra e, pior, neste selvagem salve-se quem puder. O que, num mundo de ciclos cada vez mais curtos, pode causar enjoos e náuseas.

Tudo isso se explica, afinal nossa revolução iluminista acabou na forca, nossa independência teve a fugacidade de um grito, nossa república a fragilidade de um golpe e nossa revolução urbana foi rural. Mas se explica mesmo é pela falta de uma educação básica eficiente, pública, diversificada e profunda, de alta qualidade.

Que consiga inculcar e despertar valores civilizatórios e éticos difusos, públicos e coletivos na população. Até lá, não tem jeito. Só nos resta esperar o momento de gritar “Gooolllll” !!!

Valter Caldana

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¹ João Lemos e Roberto Corrêa
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Soneto

ou como aprender a sonhar acordado

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
(Olavo Bilac)

O soneto é um poema de quatro estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos.

O marco regulatório do desenvolvimento urbano de São Paulo vai ser alterado. Se rompe um conjunto de regras que foi pactuado pela sociedade através de um exaustivo e exemplar esforço comum entre poder público, interesses privados e corporativos e grupos temáticos cidadãos.

Se rompe, infelizmente, pela sobreposição de uma agenda política partidário-eleitoral a uma política pública de primeira necessidade fruto de um pacto muito bem construído.

Esta revisão, teimosamente apresentada pelo prefeito ao arrepio de conselheiros prudentes e do que foi combinado e definido em Lei, afinal uma revisão muito mais ampla e eficaz está prevista para 2021, se mostra desnecessária nos seus termos e nos seus métodos.

Nos seus métodos por que altera elementos estruturais do Plano Diretor – mesmo sem tocá-lo – e por isso deveria ter sido preparada pelo executivo seguindo os ritos e rotinas previstos em Lei.

Nos seus termos pois sequer ataca questões essenciais do problema, que estão ligados ao fato de que temos uma Lei de Zoneamento anacrônica, ineficaz e conservadora em sua essência conceitual e na sua estrutura operacional.

Uma Lei que continua e continuará apostando na criação de dificuldades e afastando a população e sua parcela mais empreendedora do desejo de ação. Que continuará confundindo deliberadamente altura com densidade e trânsito com mobilidade, para ficar em dois aspectos contemplados nesta revisão.

De nada adiantam os esforços das equipes internas da prefeitura na elaboração de peças técnicas com alguma qualidade se as agendas político-ideológica e eleitoral atropelarem o processo. Todos sabemos desde sempre que há a necessidade de aperfeiçoamentos no marco regulatório do desenvolvimento urbano. Porém, estes devem ser feitos por todos, numa construção coletiva no mínimo semelhante à que produziu o marco em vigor. Por uma questão de respeito ao trabalho realizado e, também, de eficiência.

Não se resolvem problemas conjunturais com ações estruturais e vice-versa. As questões conjunturais que eram advindas da crise econômica, como o valor da outorga, poderiam e deveriam ter sido imediata e agilmente tratadas pelo poder público com legislações especificas, complementares e transitórias, preservando a integridade da Lei e de marco regulatório.

O mesmo se dá agora… O que é conjuntural, o que é estrutural? Por que misturar tudo e precipitar o processo?

Enfim…, preciso cuidar para não tornar este texto mais longo do que já está, posto que tanto mais se poderia dizer.

Se poderia dizer coisas como, por exemplo, o fato de que esta revisão é fruto de um arroubo político e uma bravata ideológica do ex prefeito que deixou o cargo em uma visita ao sindicato do setor imobiliário, pouco mais de um mês depois de sua posse, ignorando o trabalho, as conquistas e as concessões feitas pelos agentes produtores da cidade tanto no âmbito do executivo quanto do legislativo nos anos anteriores, justamente num esforço de construção coletiva do marco.

Se poderia dizer que ignora o fato de que o Legislativo se comportou à época de uma maneira rara em sua história e remarcável enquanto exemplo, posto que conseguiu ser republicano e eficaz em sua ação tanto na elaboração do PDE quanto da Lei de Zoneamento.

Se poderia dizer que uma revisão na Lei versando sobre aspectos que poderiam e deveriam ser objeto de legislação específica e complementar e fora do que está previsto na própria Lei gera insegurança jurídica, que é perniciosa para o ambiente de negócios da cidade

Se poderia dizer que estas alterações ora propostas estão ligadas à alteração do uso de verbas do FUNDURB e à venda indiscriminada de terrenos e áreas públicas e que isso somado aos incentivos à existência de vagas de garagem vão na contramão das necessidades ambientais, habitacionais e de mobilidade que na cidade urgem.

Por fim, se pode dizer que se trata de uma inciativa muito atrasada enquanto resposta à crise de 2016/2017 e perigosamente adiantada com relação à revisão prevista para 2021.

E, olha, isto por que sou favorável a que se possa fazer prédios mais altos nos chamados remansos, pois creio que nestes bairros consolidados não é a altura que afeta sua capacidade de suporte e sua qualidade de vida e, sim, a densidade, o que a Lei ignora e a revisão também.

Pois bem, para encurtar, é preciso que mais uma vez prestemos muita atenção à sabedoria popular.
Um soneto, por pior e mais piegas que seja, não se emenda. Pois sempre, sempre, será pior a emenda que o soneto.

Valter Caldana

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Em tempo: meu mandato como membro eleito do Conselho Municipal de Política Urbana acabou em setembro e, infelizmente, não houve uma última sessão do Conselho onde houvesse a despedida dos conselheiros e a apresentação dos novos. Digo isto por que, apesar disto, pude externar estas questões que coloquei no texto acima ao longo dos últimos dois anos e meio nas sessões em que o tema foi ali apresentado.
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O Ibira se foi…

Ah… São Paulo…

Como uma das cidades mais empreendedoras do planeta pode ter se tornado um ser acometido por esta depressão profunda?
Como esta cidade chegou ao ponto de assistir inerte, impassível, calada a mais este descalabro?
Como é possível a inapetência chegar ao ponto do atentado contra a própria existência?

O Ibirapuera é um símbolo.
Foi o símbolo de nossa capacidade, de nossa esperança, de nossa poesia e de nossos desejos e confiança no futuro em construção.

Hoje é o símbolo de uma cidade que se desfaz, que se liquefaz, que se esvai em suas mais elementares posturas de sobrevivência diante das dificuldades. Em sua repulsa ao desenvolvimento, em sua atitude de reação à sensatez e às obviedades das transformações por que passa o mundo. Se esvai em seu prazer de dormir com seus algozes.

Talvez a cidade devesse pegar de Estocolmo algo mais do que a síndrome.

Valter Caldana

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Direita, Esquerda? Vou ver.

ou faça o favor de escolher direito seu candidato a prefeito

Do mesmo modo que a aplicação do filtro ideológico pode, e deve na minha opinião, ser diferente nas eleições para o executivo e para o legislativo, acredito que ainda mais fortemente esta aplicação de critérios deva ser distinta no caso das eleições municipais com relação às eleições estaduais e federal.

Explico: a cidade apresenta um grau de proximidade ao cidadão, à nossa vida cotidiana e uma capacidade de viabilizar e inviabilizar nossa qualidade de vida no curtíssimo prazo que as outras esferas de governo não apresentam. Vale sempre a velha máxima, atribuída a Franco Montoro, de que “o Homem (sensível como ninguém, hoje ele falaria ‘a humanidade’) não vive na União, não vive no Estado. Vive no Município!“.

Enquanto nas esferas ditas superiores as pautas e agendas comuns são difusas e de contornos pouco definidos como por exemplo desenvolvimento, sustentabilidade, equilíbrio orçamentário, justiça, segurança, mobilidade, educação, cultura, bem estar, estas mesmas políticas ao nível municipal são absolutamente tangíveis, até mesmo materiais.

O fato é que a diferença se dá fortemente pois são a política e a gestão municipais que darão conta da organização dos espaços e da materialização de lugares e territórios onde as políticas públicas de qualquer esfera de poder (estadual, federal ou mesmo municipal) encontrarão a possibilidade de florescer e se efetivar.

Um exemplo cabal desta condição é o recém falecido programa Minha Casa Minha Vida. Sendo um programa federal do ponto de vista estratégico e orçamentário, teve sua principal derrota no plano qualitativo não em função de deficiências objetivas na esfera federal que o formulou e viabilizou em termos orçamentários.

Sua principal fragilidade se deu exatamente em função do dispositivo constitucional que garante ao poder público municipal a legislação e a ação sobre o território do município e, assim sendo, a localização dos empreendimentos passou sempre pela definição dos prefeitos e vereadores. Cujas decisões se serviram de critérios que passaram a anos luz dos critérios estratégicos da política federal e foram, como são, influenciadas pelo arco de alianças, hegemonias circunstanciais e interesses de curto e curtíssimo prazo da política local.

Em outras palavras, o programa federal dá o dinheiro, arruma a construtora, mas quem define o terreno e a qualidade de vida dos beneficiários diretos e indiretos da política pública federal é o prefeito municipal.

O mesmo vale para todas as demais políticas públicas, sem exceção. O que falar de uma política nacional de desenvolvimento industrial se não houver onde instalar indústrias? E o que dirá uma política nacional ambiental se a materialização da política industrial houver ocorrido em áreas e terrenos inapropriados?
Enfim, este é o ponto. Ou parte significativa dele.

Assim sendo, para a escolha de candidatos a prefeito e vereadores é preciso que sejam utilizadas duas séries de critérios: as que diferenciam o legislativo do executivo, como em toda eleição, mas também o envolvimento com uma pauta e uma agenda urbana de interesse comum, independente do posicionamento ideológico do candidato.

Usando São Paulo e suas gestões no século XXI como estudo de caso, o que se pode observar é que diante da agenda urbana mundial tivemos reações de adesão e de reação tanto de governos de direita quanto de governos de esquerda.

Se utilizarmos esta agenda como ponto de comparação, o que encontraremos. Governos como o de Kassab e Haddad estiveram bastante próximos e trabalharam no sentido de incluí-las nos objetivos de suas gestões, ainda que cada um a seu modo e com as diferenças, nuances, prioridades e velocidades que suas posições ideológicas imprimiram na tomada de decisões. Isto se pode notar em especial em temas como a mobilidade, habitação, meio-ambiente, cultura, educação e lazer.

Já governos como o de Serra, Dória e Marta, em especial no segundo biênio de seu mandato, se afastaram claramente das preocupações contemporâneas com relação ao desenvolvimento e qualidade de vida urbanos, atrasando este processo e distanciando São Paulo da rede de cidades mundiais do século XXI.

Assim sendo, o alerta e o apelo que se faz é que partidos preparem seus candidatos para o debate e a inclusão da agenda urbana contemporânea em suas plataformas e seus mandatos. E que eleitores de direita escolham um candidato de direita que compreenda o momento histórico por que passam as cidades e a urbanização do planeta. E os de esquerda, idem.

E que todos os eleitores, de direita, esquerda, centro, isentões, percebam a importância da adesão de seu escolhido a esta agenda mundial na construção e viabilização de sua qualidade de vida no curto e curtíssimo prazo, amanhã.

Hoje!

Valter Caldana

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