Preservar e tombar

ou como coisas tão diferentes podem ser igualadas

Quase sempre o que interessa é direção e sentido, por que são estruturais. Aceleração e velocidade são conjunturais e, como sabemos, quase sempre coisa de amador…

Tombar um patrimônio não significa preservá-lo. Estamos, em todo lugar, repletos de exemplos disto. Em São Paulo, então, nem se fale. Tombar é um ato técnico político administrativo fundamental para que se possa mais facilmente preservar o patrimônio (histórico e cultural, material e imaterial) mas não um certificado de garantia. E há os que lutam desesperadamente para preservar o patrimônio, seja ele tombado ou não, e encontram toda sorte de resistência e obstáculos.

Está mais do que na hora da sociedade entender que preservar seu Patrimônio é mais do que uma especialidade, é uma Política Pública e, como tal, uma responsabilidade e um custo coletivo. Assim como medicina (especialidade) e saúde (política pública), por exemplo. Ou advocacia (especialidade) e Justiça (política pública).

Uma sociedade madura saberá criar as condições de preservar mais e melhor o seu patrimônio, fazendo-o, inclusive, caminhar no sentido de seu auto financiamento. Por isso é boa a notícia de que a prefeitura estuda isentar de IPTU imóveis tombados, parabéns aos envolvidos.

Vamos agora caminhar no sentido de ampliar os tipos de tombamento e falar de financiamentos? 

Valter Caldana

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Vivendo e aprendendo

ou como pode um tiro sair pela culatra

Um dos grandes aprendizados desta eleição será buscar entender como o eleitorado do bolso, que deve ser fortemente anti chaves por princípio, não percebe a profunda semelhança na trajetória e entre os dois personagens…
Ambos militares, ambos carismáticos, ambos populares, bons comunicadores com acesso fácil às emoções coletivas, ambos pregando um discurso de redenção individual e de destruição do status quo – vamos acabar com tudo isto que está aí…

Mas tem mais semelhanças, mais importantes… ambos possuem grande sensibilidade para auscultar e reproduzir sínteses ocas mas que tocam profundamente nossas frustrações, ambos são mais intuitivos que racionais, aliás tão mais intuitivos que chega-se a duvidar da sua racionalidade, ambos parlapatões e falastrões (como disse o Rei de Espanha, por que não te calas?), ambos nacionalistas exacerbados, ambos machistas, anti-gays e populistas.

A grande diferença entre ambos é que Chaves se serviu de um discurso dito ‘popular’ e Bolso, neste momento (ao contrário donque fez em 28 anos de carreira) assumiu um discurso ‘de mercado’. Mas ainda assim completamente intuitivo.

Pois bem, teremos todos que entender, eleitores ou não do Jair, ou do Messias, o que leva a este desvio de visão tão acentuado, uma verdadeira inversão de valores. O que leva pessoas críticas e interessadas a votar exatamente no candidato que mais perto chega daquilo que combatem…

Sobretudo numa eleição que oferece para eleitores anti bolivarianos ou anti socialistas ou anti esquerda ao menos quatro possibilidades de bom nível que são Alvaro, Meirelles, Amoedo e Alkimin… numa lista que poderia até ter a Marina.

Enfim… toda eleição é um grande aprendizado, que tem a vantagem de apresentar seus efeitos velozmente pois, seja qual for seu resultado, a conta chega rápido e vai no rachide, a gente racha a conta por igual.

Valter Caldana
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Desculpa aí, foi mal…

ou a diferença entre desculpa e confissão

Uma das coisas que incomoda quem não é petista mas nem por isso e nem por eles deixou de ser contra o impeachment da presidente Dilma e se manteve solidário durante todo este período da mais explícita “porradaria” é que não houve um gesto ou declaração sequer, oficial, de pedido de desculpas para a sociedade.

E olha que parece que já houve um Congresso do partido neste meio tempo.

Não se trata de pedido de desculpas pelo que acreditam não terem feito. Mas, se inocentes são, então um pedido de desculpas por terem sido tão soberbos (ou ingênuos) a ponto de escorregarem em todas as casacas de banana que encontraram pelo caminho.
E, também, por caírem nas mais simples armadilhas do feroz jogo político brasileiro desde sempre.

Continua a espera por uma auto-crítica severa daquele que sábia e corretamente disse um dia “nós, nós não podemos errar”.

Pedir desculpas é confissão de erro, não é confissão de crime.

Ao contrário, o pedido de desculpas pelo erro torna inclusive mais crível a presunção de inocência do crime pois delimita os erros no campo em que devem estar. Erros. E os crimes no campo em que devem estar. Crimes.

Nem a soberba (manter Roberto Jefferson esperando por quatro horas na ante-sala pública do gabinete do ministro) nem a ingenuidade (‘articular’ um alvará de soltura com o juiz sem ‘articular’ com o carcereiro) são necessariamente crimes. Mas são erros. E entre estas duas pontas muitos e muitos outros erros, e também crimes, foram cometidos.

O fato é que as eleições estão chegando e é óbvio que, mesmo na situação em que se encontra o PT é um dos agentes mais importantes dela. Fez por merecer estar nesta posição, ok.

Mas não pode achar que ainda estamos em 1982 quando manteve Lula candidato a governador para alavancar o partido, nem em 1985 quando manteve Suplicy candidato a prefeito em nome de uma tal pureza (o vice de FHC era o Caio Pompeu de Toledo) e acabou elegendo o Jânio.

Muito menos estamos em 1988 quando ainda se podia fazer pirraça e não assinar a Constituição ou mesmo logo depois ao se recusar a participar do Governo Itamar, expulsar Erundina e ser contra o Plano Real. (Notar que pulei a eleição de 89).

Não dá mais para fazer análise de conjuntura na primeira pessoa do singular. Não dá para jogar de salto alto quando a sandália já se foi.

Estamos em 2018, em meio a mais grave crise institucional que o país passou nos últimos 55 anos e diante de uma eleição geral. Eleição esta que está se definindo esta semana.

Ou o PT, com tudo isso que passou e o Brasil tem passado junto, aprende a não brincar sozinho ou vai, isolado, se tornar revel na sua própria existência.

Valter Caldana
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O país da meia sola

Desde as reações à venda da Embraer para a Boeing, que chegou a ser comparada com a venda de um empresa de mostarda ou de cerveja, concluí algo que venho pensando há algum tempo, desde 2013…

O Brasil se tornou um país irreconciliável. E isto é… bom!

Mais do que bom, isto é ótimo! Só falta agora assumirmos esta nossa nova fase na vida e entendê-la. Olhar para o lado e perceber que muitos países, muitos povos, muitas nações, entre elas as maiores do mundo, também são irreconciliáveis.

Entre os países mais próximos de nós, neste grupo se incluem EUA, França, Itália… até mesmo a Inglaterra.

Se descobrir irreconciliável é a possibilidade de amadurecer, de reconhecer diferenças, de aprofundá-las, de explicitá-las sem medos ou vergonhas. Sem meias palavras, sem cochichos, sem conspirações. É poder gozar da capacidade de aprofundar projetos sem as amarras, sem a obrigação de ser consensual, de agradar o outro. É a possibilidade de reconhecer que o outro existe e é.

É, acima de tudo, a possibilidade de se assumir como se é. Com suas fraturas, seus erros, seus acertos. É a chance de parar de empurrar para baixo do tapete todas as mazelas, todas as sujeiras. De parar de acreditar que somos livres para o que der e vier, parar de acreditar que aqui não há racismo, que não há preconceito social, que somos o país do futebol, que nunca entramos em guerras, que não cometemos genocídios, que não temos terremotos, que nossa pátria tem palmeiras onde canta o sabiá.

Não dá mais para ser um país onde crianças podem tudo e transformam um simples e amigável restaurante de domingo na ante sala do inferno e ao mesmo tempo encarcerar e matar crianças na guerra do tráfico. Viver com medo de adolescentes. Deixar crianças fora da escola em tempo integral.

Vai meu Brasil inzoneiro, descobrir suas identidades, explicitar suas diferenças e construir seus vários projetos. Aprofundá-los, explicitá-los para si mesmo.

Esta é nossa grande chance. Nossa chance de experimentar o amadurecimento que nos falta para construir um grande projeto nacional e parar de dar fazer vôos de galinha e dar saltos no escuro.

Para isso, penso, alguns cuidados são necessários. O primeiro é a criação de uma agenda em torno da qual todos se curvam… Os americanos tem lá sua crença no poder das liberdades individuais, os italianos no poder da arte, da cultura e da discussão, os franceses no poder da reclamação* e do estado, os ingleses no poder do equilíbrio real…

O segundo é que os envolvidos façam seus projetos e os explicitem. E que admitam que a vitória não é o extermínio do concorrente mas o convencimento da maioria.

E que o que importa é a resultante, não o resultado.

Quem sabe esta seja a nossa chance de deixar de sermos o país da meia sola.

Valter Caldana

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* Outro dia no aeroporto de Paris, por circunstâncias pois gosto de ser o último a entrar no avião, fiquei na fila do embarque antes deste começar. Estava marcado o início para as 09h20. Às 09h22 o francês ao meu lado, maduro porém mais jovem do que eu, me olha com cara de enfado e reprovação, a que retribuí por educação. Às 09h24, já meu cúmplice ele rosna um “esta é a França de hoje, nada funciona”… 09h26 estávamos no finger entrando no avião…  ;-)
Mas ele tinha razão!!!! kkkkk
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São Paulo Ltda.

ou de como o desconhecimento leva à desorientação

Nós paulistanos precisamos aprender mais com a história da cidade. Ela é bem didática. E pode ajudar a tomar decisões para o futuro…

Por exemplo: boa parte da cidade que muitos ainda acreditam ter crescido desordenadamente (uma lenda urbana pois é justo o contrário) foi construída por PPPs, mais precisamente concessões, ou pura e simplesmente pela iniciativa privada.

Do sistema de trilhos à energia elétrica tudo teve a participação maciça de capitais privados, inclusive estrangeiros. Isto sem falar de prédios como a Estação da Luz, importado tijolo a tijolo, ou o viaduto Santa Ifigênia, pago aos ingleses em suaves parcelas durante 100 anos.

O viaduto do chá, belíssimo empreendimento privado, smj, tinha pedágio para ser atravessado… a pé! E seu desalinho com a Barão de Itapetininga, diz-se, se deve à recusa de uma baronesa ou similar em demolir seu palacete.

A esmagadora maioria dos bairros da cidade, entre rios ou fora deles, foi formada por loteamentos privados (legais e ilegais, regulares e irregulares) de glebas adquiridas de herdeiros por famílias estrangeiras que aqui chegavam com algum capital – Bonfiglioli, Mattarazzo, Abdalla, Crespi, Sarson – por empresas brasileiras e estrangeiras – Morumby, City – ou or famílias brasileiras que encontraram neste filão uma boa fonte de renda e liquidação de seu patrimônio (estas quebraram…).

Diz-se que isto explica, por exemplo, a grande quantidade de nomes de mulheres nos bairros e vilas da cidade. Seriam, em geral, os nomes das esposas, filhas e mães dos loteadores. Em alguns casos, porém, como da Dona Maria Antônia, da Dona Angélica e da Dona Veridiana (por que só ela ficou com o dona no nome da rua?) elas, e não eles, comandaram os empreendimentos e colocaram os próprios nomes.

Enfim… lembranças feitas para dizer que então há que se ter cuidado antes de assumir uma postura essencialmente contrária à participação da iniciativa privada na construção da cidade como se esta fosse apenas e sempre prejudicial. Foi com ela que a cidade chegou até aqui e, definitivamente, não é pouca coisa o que se construiu em pouco mais de um século…

Mas, por outro lado, é bom também ter cuidado ao defender apaixonadamente esta participação privada e ao mesmo tempo ficar reclamando que a cidade cresceu desordenadamente, sem planejamento, sem critérios, sem respeito ao seu meio ambiente e ao seu patrimônio, etc, etc, e tal. Afinal, ao contrário, as políticas públicas, definidas no seio do poder público, então como agora, foram meticulosamente elaboradas para facilitar a participação privada.

Dois exemplos, um histórico e outro atual são a opção rodoviarista lá atrás, que permitiu a prosperidade do mercado de terras com pouca ou nenhuma infra-estrutura e baixíssima densidade, a que chamo de extrativismo urbano, e, atualmente, a elaboração do marco regulatório, zoneamento à frente, que se preocupa ainda hoje essencialmente com o mercado imobiliário, deixando de lado todos os outros fatores e agentes produtores da cidade.

São Paulo é uma cidade “privada” e, como soe acontecer nestes casos, paga um preço alto por isso. Todos pagam, ricos e pobres, em dinheiro, em horas no transporte, em saúde, em dificuldade de acesso a bens e serviços, em destruição do meio ambiente…

Então, o problema que se coloca hoje não é entender e definir qual o papel da iniciativa privada na construção da cidade. Este a história nos ensina que é fundamental, vital. O problema que está colocado para a sociedade é entender e definir qual o papel se pretende do poder público nesta tarefa.

É hora de definir qual o grau de “privatização” do poder público e sua natureza é tolerável a partir de agora, quando o modelo de desenvolvimento usado nos últimos cem anos dá seus últimos suspiros, respirando por aparelhos, aparentando mais um cadáver insepulto.

Valter Caldana

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