Todos iguais, mas…

“Art. 116 …
Parágrafo único: São ainda consideradas não computáveis, não se aplicando os limites previstos §2º do art. 62 da Lei 16.402 de 22 de março de 2016:
I – As áreas cobertas das edificações hospitalares, em qualquer pavimento, destinadas às áreas comuns de circulação horizontal, limitada a 20% (vinte por cento) da área coberta do pavimento.
II- As áreas técnicas hospitalares, entendidas como aquelas destinadas a equipamentos de diagnóstico, com permanência humana reduzida, tais como: radiologia, radioterapia, quimioterapia, instalações técnicas.”

(…)

Este é um pequeno exemplo dos efeitos nocivos da distinção entre áreas computáveis e não computáveis no processo de aprovação de projetos.
O que está escrito acima poderia ser simples assim:

“Edificações hospitalares poderão exceder em até 30% o coeficiente de aproveitamento máximo previsto para a região”

Se isto é justo, correto ou não é outra questão.
(Sempre se poderá perguntar por que 30 e não 50… por que limitar…)

Mas, o que interessa nem é isso.
O fato é que a criação de subterfúgios é uma verdadeira mania nacional… Afinal, a graça está em dizer que todos são iguais perante a Lei e depois escrever uns trezentos artigos detalhando as excepcionalidades.

Valter Caldana

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O Papa XXI

Interessante notar que em
tempos obscuros como estes
o único líder mundial a falar
“coisa com coisa”
é o Papa!

Valter Caldana

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O OVO DA SERPENTE

Esta nova, sedenta e faminta geração de peemedebestas, esta nuvem que domina o país e nos mergulhará em ao menos sete anos de desgraças, que comete crimes cotidianos, compromete estruturalmente nosso futuro e para quem, perversa que é, isto não basta. agora atenta contra o nosso passado.

Quem escolheu Aliança e Movimento para batizar os arranjos políticos pós golpe de 64 o fez de modo genial (alguém sabe quem foi? Golbery?) pois ali se estava refletindo exatamente o quadro político se tinha então.
De um lado uma aliança civil, composta pelos próceres da direita, pelos liberais e pelos oportunistas de sempre a sustentar uma ditadura militar mal disfarçada (1964/1968) e de outro um movimento composto por outras lideranças da sociedade civil em busca de rearranjar a normalidade democrática e de construir uma agenda mínima de atuação conjunta.

No momento em que se tornou um partido aquele movimento não estava apenas cumprindo uma Lei. Estava se assumindo enquanto tal. Como o fizeram o PT e o PSDB.
Que isto fique claro e redivivo na nossa memória.
Do MDB saíram três partidos.
O PSDB, um partido de quadros, um sonho social democrata urbano (pequeno burguês?), com projeto reformista desenvolvimentista com notas nacionalistas e profundos compromissos éticos e sócio-assistenciais;
o PT, um partido que se pretendia de “massas” mas que foi sempre um partido de militantes, um sonho social democrata trabalhista urbano, com notas nacionalistas, corporativistas e estatizantes agudas e amplo compromisso sócio-assistencial;
e o PMDB, máquina partidária multifacetada e amorfa que abrigou os setores da velha política que mantinham notas de nacionalismo e compromisso sócio-assistencialista, as pequenas lideranças fisiológicas e a rede de relações incestuosas entre os interesses públicos e privados que sempre esteve presente na política nacional desde os tempos do império e que sempre atuou de forma não orgânica porém hegemônica.
Do outro lado, da Aliança, saíram vários partidos, hoje melhor representados pelo DEM e pelo PP que abrigaram as lideranças da assim chamada direita ideológica mas também as pequenas lideranças fisiológicas (o outro lado) e aquelas lideranças que se locupletaram e se fartaram sem cerimônia com o ambiente ditatorial vigente de 1964 a 1985.

Sobre a rede de lideranças fisiológicas e a rede de relações incestuosas entre os interesses públicos e privados que sempre esteve presente na política nacional desde os tempos do império e que sempre atuou de forma não orgânica porém hegemônica, que não é nem de direita nem de esquerda nem de centro, vale dizer que esteve presente tanto na Aliança quanto no Movimento desde o início da ditadura civil-militar de 1964.
Os critérios de participação em uma ou noutro se davam quase sempre por disputa de espaço e questiúnculas na definição do poder local.
Esta rede não só sobreviveu como cresceu e continuou hegemônica na máquina administrativa, o assim chamado aparelho de estado, atuando sempre nas sombras. Como um parasita, abrigada no pmdb, se infiltrou no psdb e no pt a ponto de asfixiar e atrofiar o que tinham de melhor. Comprometeu até mesmo o DEM naquilo que este tem de vinculação ideológica mais definida.
E, agora, esta rede através de suas ávidas, famintas, sedentas e despudoradas lideranças assumiu pela primeira vez o poder central, sem filtros e sem intermediários.

E o Brasil continua à espera de um partido que possa abrigar honestidade, inteligência, ação e população sem ter que escolher três.

Valter Caldana

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Índice de bondade

Há um ano eu comuniquei aqui que havia sido indicado pelo Conselho Municipal de Política Urbana – CMPU do qual faço parte, para compor como seu representante a Comissão Inter secretarial de Monitoramento do Plano Diretor.
Pois bem, esta tal comissão se reuniu duas vezes, uma para tomarmos posse, em dezembro passado, e uma anteontem para encerrar nosso mandato… risos.
Tirante este ‘pequeno problema’ de percurso, não termos participado de nada, o fato é que a Prefeitura preparou um trabalho de organização e de estruturação do que virá a ser o banco de dados de monitoramento, contando inclusive com consultoria internacional, de boa qualidade.
Assim sendo o CMPU, otimista e entusiasmado nos reconduziu (Evaniza Rodrigues e seu suplente Celso Sampaio, meu suplente Carlos Aranha e a mim) como membros da Comissão para mais um mandato, este, espera-se, real e operoso.
Esperamos fazer, desta vez, um bom trabalho.
Iniciei as atividades propondo que se crie, com a cesta de dados, um Índice de Desenvolvimento Urbano que reúna alguns poucos porém estratégicos indicadores de aderência ao Plano Diretor por parte de empreendimentos, projetos de intervenção privados ou públicos e ações do poder público nas três esferas.
A ideia é que este índice, mais ou menos como o selo verde, o Procel, o IDH e outros possa dar uma ‘nota’ a estas ações públicas e privadas de modo a tornar rápida, clara e transparente para a sociedade a percepção da qualidade urbanística e do respeito às diretrizes do Plano Diretor por parte de cada um deles.
Além disto, este Índice pode ser utilizado pelo próprio poder público (ou mesmo instituições privadas) como ferramenta de  Indução, incentivo e premiação de ações, de modo a reverter esta terrível tradição brasileira de fazer legislações que são apenas restritivas e punitivas, que só dizem não, tornando todos nós culpados até prova em contrário.
Assim, se uma ação, política ou projeto vai além do mínimo exigido em Lei por que não premiá-la com coisas que podem ir desde uma tramitação mais rápida de processos (via rápida) até mesmo taxas e prazos especiais no acesso a recursos e financiamentos em programas públicos ou privados.
Poderá ter ação direta, este índice, no cálculo da outorga onerosa, no fator de planejamento, na cota ambiental e na cota de solidariedade. Pode abranger questões culturais, de mobilidade e de criação de emprego e renda.
Descentralização…
Enfim, é uma ideia inicial que precisa ser bastante discutida e aprofundada.
Os comentários abaixo serão bem vindos.
Agradeço aqui, de público, como fiz na reunião desta manhã, os colegas conselheiros pela confiança e pela recondução.

Valter Caldana

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Alto e magro ou baixo e gordo? III

continua de Alto e magro ou baixo e gordo? II

Que número o senhor usa?

No início de 2016, quando de sua aprovação, fui perguntado se a Lei de Zoneamento era boa e respondi: não. Mas trouxe avanços? Respondi: sim. E é nisto que temos que nos fiar. (leia aqui)

Agora, para responder à pergunta título e também para entender por que estamos insistindo no jogo do erra erra ao invés de tentarmos o jogo do ganha ganha, é preciso colocar o dedo em algumas feridas que ainda estão abertas.

A primeira é reconhecer que a possibilidade da proposição de alterações significativas em uma Lei de Zoneamento recém aprovada, portanto de forma extemporânea, vem do fato de que esta Lei nasceu frágil. E do fato de todos saberem disso e terem feito ouvidos moucos e vistas grossas. Era a Lei possível, como eu mesmo disse à época.

Por isso agora convive-se, não sem um certo constrangimento de todas as partes, com esta anormalidade que é mudar uma Lei que deveria durar 16 anos em 16 meses ou pouco mais…

É o jeitinho brasileiro. Mudou a composição da prefeitura, mudou a correlação de forças na sociedade, mudaram o alinhamento e a composição da Câmara de Vereadores, mudou o Executivo, então pega-se uma fragilidade da legislação e pronto! Está feita a oportunidade de se passar por cima da previsibilidade (que alguns até chamariam de institucionalidade) de uma forma legal. Legítima?

Por outro lado, como se costuma dizer, não há que se ter compromisso com o erro. Se não está bom, se a Lei não é boa ou é frágil, que se arrume então. Óbvio!

Mas, por que a Lei é frágil, se foi feita com esmero, transparência e foi fruto de um processo participativo tanto no executivo sob o comando da então SMDU quanto no legislativo, sob o comando do vereador Paulo Frange?

É frágil por que nasceu de uma decisão político técnica preliminar que fez com que assim fosse e que ela não resistisse ao primeiro ataque, à primeira gripe, que acabou se tornando uma pneumonia com febre alta…

Foi a decisão, fartamente questionada à época, de se propor uma Lei conservadora, uma Lei “igual”, do ponto de vista de sua visão de cidade, metodologia e estrutura. De se propor, na prática, uma atualização da Lei de 1972, a mesma que produziu a cidade que temos hoje. A Lei que incorporou e deu face à cidade dispersa, extrativista, dependente de pneus e terra barata e, por isso, segregadora e cara, caríssima!

Por fim, se discutiu e aprovou uma Lei pretensamente nova sobre uma estrutura velha, cansada, frágil, próxima do colapso. E contraditória com o Plano Diretor, a quem ela deve dar operacionalidade e materialidade. Não necessariamente contraditória em seus conteúdos uma vez que trazia, então, o detalhamento de um série de diretrizes previstas no Plano. Mas contraditória em termos de, como já dito, visão de cidade e de sua dinâmica de produção.

Contraditória na forma, uma vez que continuava exageradamente grande, com linguagem hermética, excesso de zonas e de definições, sub definições e meta definições. Acima de tudo contraditória por não conseguir superar a estruturação da cidade baseada em zonas de uso, lote a lote.

Não faltaram ocasiões para alertar que esta opção era contraditória a todo o processo que se estava vivendo até então com a revisão do Plano Diretor Estratégico e que isto era uma grande perda de oportunidade. Enquanto aquele apontava um novo modelo de construção de cidade, baseado em áreas e interesses coletivos, a Lei mantinha intacta a visão anterior, baseada no uso do lote como unidade geradora de planejamento e desenho urbano.

Não obstante, muitos gostariam, inclusive eu, de ver avanços mais significativos, estruturais. Uma Lei nova, mais adequada aos novos tempos, mais flexível, mais ágil, menos impositiva, mais indutiva. Mas não foi assim. Esta foi a Lei possível, fruto de um processo negociado que reflete o atual estágio de desenvolvimento e profundidade da discussão sobre a cidade por seus agentes produtores, que ainda é pequeno diante da magnitude de suas responsabilidades.” (26 /02/2016)

Esta é a segunda ferida que precisa ser tocada. Ao optar por manter a Lei na estrutura antiga seu destino foi selado. Manter a Lei baseada na figura pontual do lote significou, como era de se esperar, manter a prática das modificações também pontuais, aqui e acolá, típicas do período 1972/2015. E é isto, apenas isso, que se está vendo agora. A repetição de um processo que nos acomete há décadas, o chamado mais do mesmo.

Se é assim, por que o espanto então?

Por que desta vez o processo havia sido participativo e por que agora a sociedade, ou parcela importante (e participativa) dela, descobriu a cidade. Por isso esta mesma parcela está espantada com o fato de que a Lei que foi negociada em audiências, seminários e oficinas, e que deveria ser resultante, estável e perene, como o é o PDE, não é.

Ela se mostra móvel ao sabor dos ventos políticos e econômicos e de interesses corporativos. Interesses que de legítimos que poderiam ser, dado este processo passam a ser entendidos como potencialmente escusos ou, no mínimo, unilaterais.

Para piorar, o que se vê são os jogadores mais velhos quase que dizendo aos novatos, como na velha piada: “você é novo aqui, ‘né’? E segue riso farto!”

Esta é a sinuca de bico em que se meteram os vereadores. Mudar os índices agora, pontualmente, como sempre foi feito, é assinar um atestado de que erraram poucos meses atrás? E o que se dirá na próxima mudança que ocorrer, que sabemos todos vai vir e não demorará pois a Lei pede e induz a esta dinâmica?

Esta é a sinuca de bico em que nos metemos.
Como sairemos desta contradição?

(continua)

Valter Caldana

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